Mostrar mensagens com a etiqueta Montanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Montanha. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escola de Escalada de Cidadelha de Aguiar

No passado sábado, dia 24 de Setembro, foi oficialmente inaugurada, em Vila Pouca de Aguiar, uma nova escola de escalada. Localizada em Cidadelha de Aguiar, esta obra resultou de um projecto que levei a cabo, depois de um trabalho árduo e persistente que durou cerca de três anos, com um investimento financeiro feito por mim próprio. Foram necessárias algumas centenas de horas de labor, repartidas pela abertura de acessos aos sectores de escalada, pela limpeza das fragas e pelo equipamento das vias de escalada. Destaco aqui a preciosa ajuda prestada pelo meu camarada de montanha, Carlos Filipe.
Tudo começou com um passeio solitário de jipe pelos montes, que me levou à descoberta de uma zona que me pareceu ideal para equipar um conjunto de vias de escalada, e assim criar uma escola desta modalidade desportiva. E assim foi!
Situada nos limites de Cidadelha de Aguiar, uma povoação próxima do centro de Vila Pouca de Aguiar, a escola de escalada divide-se em três sectores, são eles: o Mons Palatinus, o Rostrum e o Locus Mirandus. A opção por lhes atribuir nomes em latim, assim como às vias de escalada, resulta do meu interesse particular por essa língua clássica, em especial por algumas expressões idiomáticas, adágios, ditados, máximas e afins. Daí que a generalidade das vias viessem a ser baptizadas com base nestes.
Por outro lado, a escolha de Mons Palatinus e Rostrum para os nomes de dois dos três sectores de escalada advém do interesse que nutro pela cultura e arte da Antiguidade Clássica, em particular por Roma. Já o sector Locus Mirandus (miradouro) resulta do simples facto do mesmo proporcionar umas vistas admiráveis sobre a sede de concelho e sobre parte do vale de Vila Pouca de Aguiar. Ao todo, esta nova escola de escalada é composta por 33 vias, sendo algumas delas para escalada clássica, outras para desportiva e ainda algumas para artificial.
Voltando à inauguração, a apadrinhá-la esteve o Club Alpino Ourensán (Espanha), do qual sou sócio, que se deslocou ao nosso concelho com uma equipa de 40 atletas e amigos. O programa de inauguração completou-se com duas marchas, uma decorrida no dia 24 e outra no dia 25, que para além dos nossos vizinhos espanhóis contou ainda com um grupo de caminheiros aguiarenses. Alguns dos nuestros hermanos participaram ainda, no dia 25, na II Rota das Cebolas, uma prova de BTT organizada pelo Moto Clube do Corgo.


Para todos os escaladores que queiram ter acesso aos croquis das vias da Escola de Cidadelha de Aguiar, basta clicar aqui... Escola de Escalada de Cidadelha de Aguiar

sábado, 6 de agosto de 2011

No tecto de África

No dia 27 de Julho, pelas 6h da madrugada, atingi o cume da mais alta montanha do continente africano, o Uhuru Peak, mais conhecido por Kilimanjaro, um vulcão extinto há muitos anos. Trata-se de uma montanha com 5895m de altitude, situada a norte da Tanzânia, na fronteira com o Quénia, e que faz parte de um parque nacional com o mesmo nome. Cheguei no dia 21, descansei apenas dois dias no hotel, e logo de seguida parti para a montanha para cumprir um programa de ascensão de seis dias. Para além do corpo logístico (carregadores, cozinheiro, serventes e guias), acompanharam-me dois companheiros que conheci no hotel, um australiano (Rod Woodward) e outro alemão (Johannes Herges). Durante esse período pernoitámos, ao todo, em 5 acampamentos, o mais alto situado a 4600m, e caminhámos cerca de 80Km. Desde o ponto de partida, a 1828m de altitude, até ao cume da montanha fizemos um desnível de 4067m.
A ascensão foi dura. É certo que também escolhi um dos itinerários mais exigentes, mais concretamente, a chamada Rota Machame, que se inicia a sul e termina ligeiramente pelo lado Este da montanha. Começámos à meia-noite em ponto, desde o acampamento 4 (o mais alto), numa ascensão vagarosa, tal como é típico em alta montanha. Até aos 5400m de altitude, aproximadamente, tivemos a cobertura de um céu limpo e estrelado. Os nossos cálculos apontavam para uma chegada ao topo a coincidir com o nascer do sol, e poder assim desfrutar das maravilhosas paisagens que habitualmente nos proporciona o raiar da aurora, mais ainda àquela altitude e naquele continente de cores quentes! Infelizmente, e a partir dessa altitude, o tempo começou a mudar, com a aproximação de nuvens e uma queda de neve miúda, mas a um ritmo considerável, que se foram acentuando à medida que nos aproximávamos do cume. Chegados aqui, registava-se uma temperatura de -10ºC, o que fez com que a minha máquina fotográfica “congelasse” e me impedisse de tirar fotos com a qualidade e quantidade desejadas. Enfim, a montanha é mesmo assim… imprevisível! Apenas consegui uma meia dúzia, e de fraca qualidade. Terminados os festejos pela conquista do cume, e porque as condições climatéricas não estavam para brincadeiras, decidimos baixar, depois de uma permanência de cerca de 15 minutos.
A descida foi mais custosa devido ao terreno muito deslizante, o que tornou mais árduo o regresso ao acampamento 4. Chegados aqui, descansámos cerca de duas horas, para logo de seguida retomarmos a marcha em direcção ao último acampamento, o 5º, situado a 3100m. Só num dia fizemos um desnível de 2795m. Aí permanecemos a última noite na montanha, já a sonhar com um tão desejado e prolongado banho no hotel!
A paisagem nesta montanha varia à medida que vamos subindo. Começamos por atravessar uma zona de floresta tropical, passando depois pela charneca, tundra, e finalmente por uma zona mais desértica, que mais fazia lembrar um ambiente lunar, onde pudemos ver algumas encostas majestosas, tão apetecíveis para a escalada alpina. Só mesmo no topo do Kilimanjaro é que encontrámos neve e gelo. Algumas estimativas apontam para o degelo total para o ano 2020! Enfim, uma situação preocupante e lamentável que se passa igualmente em outras zonas glaciares do globo!
Quer no hotel, quer no período em que estive na montanha, conheci várias pessoas de diferentes nacionalidades. Para além dos companheiros atrás referidos, conheci outras pessoas, com as quais tive o prazer de trocar algumas impressões sobre temas diversos. Para mim foi bom para praticar não só as línguas que já domino bem, o francês e o espanhol, mas sobretudo o inglês, aquela que necessitava de exercitar mais. As duas semanas de prática desta língua deram-me uma certa fluência e à-vontade nas conversações que experimentei.
Quanto aos tanzanianos, bem, pela experiência que tive apenas tenho a dizer que é, de um modo geral, um povo prestável, simpático e bem-disposto.


Nota: Na página de vídeos deste blogue encontra-se um sobre esta minha aventura por terras de África.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Finalmente, as FÉRIAS!

Com as baterias a descarregarem os últimos resquícios de energia, urge o descanso tão merecido para que as possamos recarregar. No que me toca não sei se tal se verificará! Os projectos para estas férias, praticamente sempre os mesmos, apontam para algum desgaste, embora mais físico. A agenda está preenchida e divide-se em três saídas… para a montanha, claro! No entanto, confesso que se trata de um desgaste que acaba por ser revigorante, quanto mais não seja para o espírito.
Em outras ocasiões, noutros textos aqui publicados, já explanei bem a importância e o valor que tem para mim (e para qualquer amante da natureza) o contacto com a montanha. Ainda que por vezes seja para ver o mesmo e fazer mais do mesmo, há sempre algo de novo e impressionante que encontro. As paisagens de cortar a respiração e os sucessos que tenho obtido nas minhas escaladas acabam sempre por me aportar momentos de introspecção valiosos e uma confiança acrescida, que acabam por atestar aquilo que sabemos, ab aeterno, quanto à importância de nos sentirmos parte da natureza, de reconhecermos humildemente que somos um mero elemento deste cosmos.
Mas este ano vai ser diferente. A primeira saída, prevista para o dia 20 deste mês, causa-me alguma ansiedade. Talvez esteja a ser modesto quando digo “alguma”! Parto para a Tanzânia, para escalar a mais alta montanha do continente africano, o Kilimanjaro, aquela que inspirou o célebre escritor Ernest Heminghway, no seu livro, “As Neves do Kilimanjaro”. Não é tanto pela dificuldade técnica, que é relativa, mas pelo quase total desconhecimento do que lá irei encontrar. Por essa razão dei-me ao recomendável trabalho de fazer algumas pesquisas na Internet sobre este país, em particular sobre o seu povo e a sua geografia. O interesse por essa expedição não é apenas pela ascensão dessa montanha, um vulcão extinto há muitos anos e coberto com uma coroa de neve e gelo, mas também pelos ambientes e espaços que irei encontrar, designadamente, savana africana, floresta tropical, charneca, tundra, o próprio ambiente alpino, enfim, ÁFRICA! Depois há as pessoas, claro. Pelos vistos muito amáveis.
Para além destas curiosidades e do interesse despertado, tive o cuidado de me preparar ao nível da língua ali utilizada, no meio turístico. A língua oficial é o suaíli, embora, e devido à colonização britânica entre 1919 e 1961, também se fale o inglês. E ao estudo desta língua que me tenho dedicado, já lá vão cerca de 3 meses. Pelo menos o gosto ficou, e o interesse e a promessa em continuar a estudar também. É que há outros destinos que tenho na manga e que me vão igualmente exigir o “domínio” da língua. Não é que eu não fosse capaz de me desenrascar, mas exigente como sou comigo mesmo, entendi alargar os meus conhecimentos sobre a língua, para poder sustentar uma conversação mais ou menos prolongada. Vão ser cerca de 2 semanas nesse mundo desconhecido, e não me sentiria bem comigo mesmo se me ficasse por um “Hello”, “How do you do”, “I´m fine”, “Thank you”, “May I…” ou “I want this or that…”.
A ver vamos como é que me vou sair! A crónica de viagem está prometida.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

No topo da Península Ibérica

No passado dia 21 de Abril ascendi ao ponto mais alto da Península Ibérica, o Mulhacén (3.478 m), na Serra Nevada, na Cordilheira Penibética. Escalando pela face norte, a mais proeminente e exigente dessa montanha, necessitei de 2h30 para vencer os cerca de 500 metros de desnível, que vão desde a base dessa face até ao cume. A escalada mista (gelo e rocha) empreendida foi feita em solitário. Com uma inclinação que variou entre os 40º e os 60º, e com alguns ressaltes que atingiam os 80º, a via seleccionada traduziu-se numa exigência física e psicológica consideráveis, na medida em que o mínimo descuido poderia ter-me sido altamente comprometedor. Contudo, a determinação, a concentração e o treino prévio e intensivo garantiram-me o sucesso do projecto. A descida foi feita pela face sul, muito acessível, dada a sua pouca exigência técnica e o seu moderado declive.
O Mulhacén recebeu o seu nome de Muley Abul Hassan, o penúltimo Rei Mouro de Granada, no século XV, que de acordo com uma lenda está sepultado no topo. Embora não tenha uma altitude muito significativa, o Mulhacén é a montanha europeia mais alta fora do Cáucaso e dos Alpes. É também o terceiro pico da Europa em proeminência topográfica, apenas ultrapassado pelo Monte Branco e pelo Monte Etna, e o 64º no mundo.
Na página dos vídeos deste blogue encontra-se o filme que, de forma sintética, dá contada desta aventura.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Peña Ubiña

Nos passados dias 28 e 29 de Dezembro estive, com o meu companheiro de montanha Carlos, no Parque Natural Ubiñas, situado no Principado das Astúrias (Espanha), na área central da Cordilheira Cantábrica. Trata-se de um terreno de montanha e vales dentro dos concelhos asturianos de Teverga, Quirós e Lena. A montanha caracteriza-se pelo maciço de Ubiña, com mais de 2.400m (Picos del Fontán e Peña Ubiña com 2.417m), e diferentes zonas com uma altura que ronda os 2.000m.
A nível da flora, todo o parque é uma zona de grande diversidade e em bom estado de conservação, com um terço da sua superfície ocupada por bosques de alto valor ecológico e de uma antiguidade apreciáveis, destacando-se a Faia. A nível da fauna, destaca-se a presença do urso pardo cantábrico, que já conta com uma considerável comunidade (cerca de 400 exemplares, de acordo com informação prestada por um aldeão local). Dentro do parque podem-se encontrar outras espécies, como o javali, o corso, o cervo, o veado e o rebeco (espécie de cabra montesa). Existe ainda uma grande variedade de carnívoros, tal como o lobo, a raposa, a marta, o gato-montês, entre muitos outros.

Deslocámo-nos a esse maravilhoso parque para ascender precisamente à Peña Ubiña. No primeiro dia ascendemos ao refúgio Veja de Meicín, situado a 1.500m de altitude, e aí pernoitámos. No dia seguinte, e depois de tomar o pequeno-almoço, iniciámos a ascensão da dita montanha. Levou-nos cerca de 3 horas até alcançar o cume. No verão, ou com outras condições de terreno, consegue-se o logro em cerca de 2h30, mas as condições que encontrámos, muito vento e sobretudo muito nevoeiro, dificultaram a empreitada. Posso dizer que tivemos alguma sorte para encontrarmos o cume, pois à medida que nos aproximávamos dele, o nevoeiro tornava-se cada vez mais cerrado. Infelizmente não conseguimos sacar as fotos que gostaríamos, diga-se, a toda a paisagem envolvente (que em dias de céu limpo permite contemplar o mar Atlântico), mas valeu pelo esforço e o treino conseguido. A descida foi bem mais rápida, pese embora os cuidados exigidos em terrenos nevados, e apesar do próprio desgaste acumulado.
Assim que regressámos ao refúgio, apenas tivemos tempo de recolher o material que aí tínhamos deixado, reorganizar as mochilas e voltar a baixar até ao parque de estacionamento da aldeia onde deixámos o carro, Tuiza de Arriba. Depois foi só metermo-nos à estrada e regressar a casa, uma viagem de cerca de 3h30… nas calmas!
Ficou o desejo de lá voltar, quer para novas actividades alpinas invernais, quer também para umas apetecíveis marchas de montanha em finais de Primavera e/ou durante o Verão, pois o local é digno de se visitar, pelas mais variadas razões.


Nota: A informação prestada nos primeiros parágrafos sobre as características do Parque Natural Ubiñas foi obtida na Wikipedia.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Espolón Pioneros

No passado dia 28 de Agosto estive algures, na província de León, para mais uma aventura na montanha. Desta vez passou-se na Peña del Pincuejo, uma parede rochosa vertical, situada num desfiladeiro, nas costas de uma pequena aldeia chamada Caldas de Luna. Aí escalei em solitário uma via de 110 metros, que dá pelo nome de Espolón Pioneros. Tendo em conta os cuidados exigidos numa escalada em solitário, o feito decorreu com normalidade, sem percalços, num cenário caracterizado por uma paisagem envolvente magnífica. Ao longo de cerca de três horas fui palmilhando cada centímetro quadrado da rocha, desfrutando ao máximo das várias e antagónicas sensações que uma escalada alpina suscita.

Quando cheguei ao local de escalada, já lá se encontravam alguns companheiros escaladores do Grupo Desportivo e Cultural de Vilarelho, que já iam bem lançados na mesma via! O tempo não estava para demoras, tendo, por isso, deitado mãos à obra, assim que me acerquei da dita parede.
O local é digno de passar lá uns dias tranquilos, em plena natureza, repartindo o tempo por algumas escaladas, marchas e (porque não?) um mergulho no rio que serpenteia por entre o referido desfiladeiro. Certamente que será um lugar que voltarei a visitar.
Para os interessados em ter uma ideia da minha aventura, segue abaixo o vídeo documental.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aguja Bustamante

No passado dia 23 de Julho escalei em solitário a chamada “Aguja Bustamante”, situada no maciço central dos Picos de Europa, um santuário da natureza que para mim se tornou obrigatório visitar todos os anos.
Foram necessárias aproximadamente duas horas para escalar uma via de cerca de cinquenta metros. Para quem não estará por dentro do tema, uma escalada em solitário é feita, tal como o nome indica, por uma única pessoa, ou seja, sem o apoio de um colega para lhe fazer segurança. Ora, para além de algumas técnicas especiais, e de um sistema de auto-protecção, obviamente que a empresa exige cuidados redobrados, embora isso não signifique que os riscos aumentem consideravelmente. Na minha opinião, por vezes acaba por ser mais seguro escalar dessa forma, do que o fazer com um colega menos experiente, ou que tem tendência para distrair-se quando está a fazer a segurança daquele que vai a abrir caminho.
A escalada em solitário exige concentração, serenidade e um bom controlo da mente. Exige igualmente conhecimentos técnicos e uma prática regular. Sem dúvida que, quando bem sucedida, eleva os níveis de auto-confiança, para além das lições que se tiram, e que podem ser aproveitadas em outras actividades alpinas.
Obviamente que durante as minhas incursões pela montanha, depois de concretizados os meus projectos de escalada, aproveito sempre para conhecer mais uma aldeia, um percurso pedestre, o património histórico e cultural, a gastronomia regional, etc.
Continua-me a surpreender a forma como os nossos vizinhos espanhóis exploram os seus recursos naturais, neste caso as montanhas (com toda a sua fauna, flora, rios, etc.), de uma forma tão proveitosa! Muitos não imaginarão a quantidade de pessoas que visitam os Picos de Europa, seja na época invernal, seja na época estival, que fazem movimentar o comércio, a indústria e o turismo local, dando emprego a milhares de trabalhadores, com todos os resultados económicos que se poderão imaginar. Enfim, um exemplo a seguir para o nosso turismo de montanha!
Para os interessados em ter uma ideia da minha aventura, coloquei um vídeo no Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=n5KrWrzsUfI) , que dá conta, através de um breve resumo, da referida escalada.

domingo, 27 de junho de 2010

Cheiro a Férias!

Cada vez mais valorizo o tempo de férias. Talvez porque o trabalho e as pressões sobre um professor (…) têm vindo a aumentar nos últimos anos. Sem querer entrar em detalhes sobre a organização escolar, as medidas governativas tomadas, as reformas e contra-reformas educativas, sobre a própria evolução (!) do ensino e da educação, a verdade é que as férias são cada vez mais desejadas.
Longe vão os tempos em que colocava escola acima de tudo, ou quase tudo, aquilo que fazia. Como se diz na gíria, era o amor à camisola. Não que eu hoje tenha perdido de todo esse sentimento ou desígnio. Continuo indiscutivelmente orgulhoso de ser professor. Gosto do que faço, gosto do contacto com os alunos, das relações afectivas que se criam. Gosto de me relacionar com os colegas, fazer amizades, enfim, de conviver. Muito sinceramente, tenho dificuldades em imaginar-me a exercer outra profissão que não a de professor. Apesar de tudo, continuo a achar que vale a pena exercer tão nobre exercício profissional e, porque não (?), de filantropia.
Mas regressando ao tema das férias, o que mais me apraz, é saber que se avizinha um período em que vou deitar mãos à obra e tentar realizar projectos traçados com muita antecedência. Alguns deles há anos. Exceptuando a reserva de uns dias para a praia, mais outros tantos para o bricolage, como amante da montanha, naturalmente que se avizinham para mim escaladas muito desejadas.
Este ano voltarei aos Picos de Europa (lugar em que, até à data, ainda não falhei um único ano) e aos Alpes. Dado que nos últimos tempos tenho vindo a desenvolver e a melhorar as minhas técnicas de escalada em solitário, uma opção talvez mais filosófica do que desportiva ou técnica, quer num destino, quer noutro dos atrás referenciados, aguardam-me duas empresas que vão exigir de mim uma boa preparação física e, acima de tudo, uma boa preparação psicológica. Quanto à primeira não tenho nada a temer, pois é um exercício que mantenho regularmente. Quanto à segunda, para além das pesquisas que faço acerca das vias, itinerários, logística e condições de terreno, a preparação faz-se ao longo do próprio acto de escalar. A reflexão é permanente. Durante o treino de escalada, cada movimento é precedido de um questionamento, que resulta da dialéctica entre a opção tomada (ou a tomar) e as suas potenciais consequências. Muito do que fazemos na nossa vida está recheado destes exemplos.
Em síntese, e para terminar, o nosso dia-a-dia é feito, com a menor ou maior consciência, deste acto reflexivo de que falava, e que decorre da(s) nossa(s) prática(s). Pena é, e voltando ao ensino, que nem todos (quer professores, quer a sociedade civil em geral) têm a plena consciência de que o ser humano só evolui e só é capaz de se sentir plenamente integrado e exercer a sua plena cidadania, livre e democrática, se adoptar uma atitude crítica e reflexiva, bem como um olhar vigilante, face a todas os movimentos e transformações sociais, em particular sobre os que detêm o poder político. Esta deveria ser uma das prioridades das aprendizagens na escola.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Torre del Friero

Nos dias 3, 4 e 5 do mês de Abril estive no Maciço Central dos Picos de Europa (Espanha), para subir ao cume da célebre Torre del Friero (2455 m). A ascensão fez-se pelo chamado Corredor Norte Central (o maior da Península Ibérica), ao longo de um percurso de 1100 metros, através daquilo que em alpinismo se designa de escalada mista (gelo e rocha). A subida deste corredor corresponde igualmente a uma das mais longas escaladas invernais da Europa. Fi-la juntamente com o meu companheiro de montanha, Carlos Filipe. Contámos ainda com a presença de outro confrade, Rui Crespo, nosso repórter, que nos prestou uma preciosa ajuda logística, dando-nos apoio a partir do campo base, instalado na Veja de Asotín, a 1400 metros de altitude.
As condições de terreno que encontrámos não foram as ideais para uma escalada invernal, pois uma boa parte do percurso foi feita em neve mole, que por vezes chegava à cintura. A temperatura mínima que se fazia sentir, de apenas -3ºC, foi uma das principais causas desta situação. Só a partir de metade do percurso é que fomos encontrando, de forma avulsa, algumas placas de gelo, facto que, apesar da maior exigência técnica, permite uma escalada mais expedita. Foi, sem dúvida, uma escalada muito cansativa e desgastante. No entanto, e chegados ao cume, pudemos desfrutar daquilo que mais maravilha um alpinista: uma paisagem deslumbrante e de cortar a respiração. A descida foi igualmente fatigante pois, ao contrário do que muitos poderão pensar, em montanha nem sempre “os santos ajudam”! Empreendemo-la por um percurso diferente da recomendada. Apenas resultou em mais cerca de uma hora de caminhada. Fi-lo por pura intuição, e porque também tivera feito, no dia anterior, um pequeno reconhecimento de parte de um itinerário alternativo, que se veio a revelar perfeitamente aceitável.
Para não me perder em narrativas infrutíferas ou supérfluas acerca da aventura brevemente aqui exposta, pois de modo algum poderiam descrever com maior expressão aquilo que os nossos olhos saborearam, preparei um vídeo sobre a mesma, que pode ser visto nesta página.

Até uma próxima aventura…
----------------------------------------------------------------------------------
Nota de Rodapé: Caros leitores, conforme prometido, aproveito este espaço para tecer umas breves considerações acerca do artigo anterior, datado de 30 de Março. Para ser mais preciso, lembro que com um simples título, mas bastante sugestivo, dado a esse mesmo, pretendia meditar (diga-se, uma tarefa árdua!) acerca da razão ou razões das visitas feitas ao meu blogue. Na verdade, tratava-se de um teste ao visitante. O primeiro facto a registar (que coincide com o único!) é que o referido título, “SEXO”, suscitou um número de visitas acima da média a que estou habituado, num período que durou duas semanas. Eu próprio contribuí para as estatísticas… mas atenção, só com uma consulta! A partir desta “amostra”, está visto que a generalidade das pessoas só pensam em sexo… o que é perfeitamente legítimo. Faz parte da natureza e das necessidades do ser humano. Se fosse algo tão desagradável, provavelmente nem se falava nele. Despeço-me com um conselho muito original: pratiquem sexo e tenham bom proveito, mas atenção aos excessos!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Uma aventura em Gredos

Nos passados dias 8, 9 e 10 do presente mês estive, juntamente com cinco amigos espanhóis (Rafa, Fernando, Carlos, Jesus e Paco), na Serra de Gredos (Espanha), para mais uma actividade alpina. Inicialmente, o que estava planeado era a ascensão, pelo corredor norte, do Pico Almanzor (2592 m), o maior deste maciço montanhoso, situado no Sistema Central. No entanto, as piores previsões meteorológicas confirmaram-se: temperaturas a rondarem os 15 graus negativos (isso ao menos!), ventos fortes e neve a chegar ao nível da cintura.
A partida a pé fez-se no sábado, dia 9, logo ao amanhecer, desde o parque onde ficou estacionado o automóvel até ao refúgio de montanha Elola (a 2000 m de altitude), onde nos alojaríamos nesse fim-de-semana. A marcha durou-nos cerca de 3 horas. Até aí tudo bem. Uma vez chegados ao refúgio, ainda da parte da manhã, fomos informados de que a ascensão do Almanzor, prevista para domingo, era praticamente impossível, dada a elevada cota de neve verificada e o risco de avalanches. Para não darmos o tempo por perdido, e aproveitando o facto de termos dispendido dinheiro, tempo e um elevado esforço para ali chegarmos, decidimos nesse mesmo dia, e para a parte da tarde, escalar algumas das muitas cascatas de gelo que por ali proliferam. E assim aconteceu. Pese embora as dificuldades em chegar a elas, devido às difíceis condições de terreno, lá conseguimos queimar algumas calorias. Combinámos regressar às mesmas no dia seguinte. No entanto, logo pela manhã de domingo, e durante o pequeno-almoço no refúgio, fomos informados de que as condições meteorológicas iriam agravar-se ainda mais, o que levou o guarda do refúgio a anunciar o encerramento do mesmo, para evitar o seu isolamento e dos seus utentes. Tal situação levou-nos, com alguma frustração mas sem a menor hesitação, a decidir baixar da montanha e meter-nos à estrada, para regressar a casa nesse mesmo dia.
Apesar da alteração de planos, o balanço foi positivo, pois sabemos que até com os erros se aprende. Mas quem conhece o verdadeiro espírito do alpinista, sabe que a aventura, o risco e a ousadia são intrínsecos à sua personalidade e comportamento, levando-o por vezes a desafiar a natureza, com todas as consequências que daí possam advir!
O desejo de regressar o mais brevemente possível a Gredos, para desfrutar daquele santuário de neve e gelo, ficou-nos nas ganas.
Mais aventuras nos esperam! Até lá!!!

sábado, 29 de agosto de 2009

No vértice do Cervino

No passado dia 20 de Agosto alcancei o cume de uma montanha considerada por muitos a mais bela do mundo. Obviamente que a opinião é discutível. No entanto, é de facto uma montanha impressionante, quer pela sua beleza e forma única, quer pela exigência que coloca a quem a quiser escalar. Com os seus 4478 metros de altitude, o mítico Matterhorn (em suíço) ou Cervino (em italiano) constitui uma imponente e majestosa montanha, que se destaca na paisagem dos Alpes pela sua forma original. Assemelha-se a uma pirâmide. O seu historial é negro, pois são muitos aqueles que já lá perderam a vida… e continuam a perder. Na primeira vez em que foi escalada, a 14 de Julho de 1865, dos sete alpinistas que alcançariam o cume (Edward Whymper, Charles Hudson, Lord Francis Douglas, Douglas Hadow, Michel Croz e os Peter Taugwalder, pai e filho), apenas 3 regressariam com vida. Na descida, os restantes quatro acabariam por morrer numa queda.
Apesar de me sentir bem fisicamente, a nível anímico revelava algumas fragilidades. Valeram-me as palavras do meu Anjo da Guarda, que me deram o estímulo necessário para abraçar com coragem o desafio que se me colocava. Que bom ter um anjo da guarda!
Inicialmente estava programado escalá-la com um amigo espanhol, de Valencia, que viria a ser impedido de me acompanhar por motivos profissionais. Perante este contratempo, e dada a minha determinação em subi-la, acabei por fazê-lo em solitário até certo nível. Optando pela via mais acessível, mas mais concorrida, a via Hörnli (situada na aresta nordeste), com um desnível de cerca 1200 metros, decidi subir a montanha em duas etapas. A primeira, dos 3200 metros de altitude até aos 4000, foi na verdade conseguida em solitário. Aí decidi pernoitar num pequeno refúgio, no qual só é permitido instalar-se em caso de emergência. Uma pequena infracção necessária! Entretanto, e nesse mesmo refúgio, conheci um alpinista de nacionalidade alemã (o meu amigo Otto), que tinha os mesmos objectivos que eu (escalar toda a montanha em solitário), com o qual acabaria por acordar a subida em conjunto dos restantes 478 metros, no dia seguinte.
Diga-se, em abono da verdade e neste caso particular, que uma escalada em solitário faz-se mais rápido. No entanto, uma cordada de 2 ou 3 alpinistas proporciona maior segurança, embora nalguns casos isso possa representar um empecilho, e até algum risco.
Apesar da pressão psicológica e do desgaste físico, tudo correu bem. As vistas do cume, essas, impressionantes! Com o céu limpo pude contemplar paisagens de cortar a respiração. Um infortúnio impediu-me que as registasse. Durante a escalada, uma bolsa com uma máquina fotográfica e telemóvel que levava presa à alça da minha mochila soltou-se, tendo eu apenas tempo de a ter visto saltitar pela montanha abaixo, para acabar no abismo. Enquanto apenas forem objectos, bem vamos andando!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Aguja de la Canalona


No passado dia 24 de Julho fiz aquela que poderei considerar uma escalada em solitário com uma dimensão algo respeitável. Tratou-se da via normal da Aguja de la Canalona (AD Sup – 80m/IV). Constituída por três lanços, esta via é de uma beleza impressionante, dada o seu percurso sinuoso, bem como as vistas maravilhosas que proporciona. Tem ainda a particularidade de terminar numa espécie de terraço.
Ainda com uma prática por apurar neste tipo de escalada, tratou-se de um teste às minhas capacidades. O nervosismo que antecedeu a ascensão logo se foi perdendo à medida que fui escalando e ganhando confiança. Apesar de um nível baixo, estas via de escalada clássica requer alguns cuidados, dado exigir técnicas de escalada variadas (aderência, entalamentos, bloco, etc.), e ainda pelo facto de ter algumas travessias que, para quem sabe, em caso de queda leva a que se façam movimentos pendulares, com riscos consideráveis.
Situada no maciço central dos Picos de Europa, esta via, e este pico, foi escalado pela primeira vez a 8 de Agosto de 1948, por um grupo constituído pelos irmãos Alfonso e Juan Tomás Martínez, juntamente com mais dois companheiros de escalada, José Odriozola e Alfonso Alonso. Desde aí, outras vias se abriram nesta agulha, que se assemelha mais a uma torre.
Sem dúvida um “monumento” rochoso que me deixou o desejo de voltar a escalar numa próxima oportunidade, mas agora por uma outra via mais longa e de maior exigência. Veremos!

sexta-feira, 24 de abril de 2009
















Pela Cordilheira do Atlas

Entre os dias 4 e 12 de Abril integrei uma equipa galega de alpinistas numa expedição a Marrocos, mais concretamente à cordilheira do Atlas, uma cadeia de montanhas situada a noroeste da África, que se estende por 2400 km através de Marrocos, Argélia e Tunísia, incluindo ainda Gibraltar. O programa traçado incluía a ascensão a quatro montanhas com uma altitude superior a quatro mil metros. Tal desiderato foi conseguido nos dias 8 e 9. No primeiro desses dois dias alcançamos o cume das montanhas Ras (4083m) e Timesguida (4089m). No segundo dia subimos ao Jbel Toubkal (4167m), o mais alto da cordilheira do Atlas e do norte de África, e o seu “parente”, o Toubkal-Oeste (4030m). As ascensões fizeram-se sem problemas e com um contributo valioso do tempo. No cimo do monte Jbel Toubkal fomos premiados com uma vista maravilhosa, em direcção a sul, sobre o deserto do Saara.
Muitas montanhas são consideradas locais sagrados. Por esta e outras razões, nos seus cumes são prestados tributos ou fazem-se votos sob as mais diversas formas às pessoas que nos são mais queridas, aquelas que mais amamos ou desejamos. No Jbel Toubkal fiz questão de prestar os meus.
Para além da beleza majestosa e envolvente daquele maciço, de texturas e contrastes ímpares, surpreendeu-me o encanto de alguns centros urbanos e das próprias gentes de Marrocos. Aqui destaco Marrakesh, conhecida por “cidade vermelha”, "pérola do sul" ou "porta do sul". Capital da região de Marrakesh-Tensift-El Haouz, possui o maior suq (mercado tradicional) do país, assim como uma das praças mais movimentadas da África, a Djemaa el Fna, que abriga acrobatas, dançarinos, músicos, encantadores de serpentes, barracas de comida, entre outros. A azáfama e o reboliço que aí encontrámos deram-nos a perceber quão variadas são as culturas que povoam o nosso planeta. Entrando pelo labiríntico mercado de Marrakesh pudemos observar e saborear toda a actividade cultural, laboral e mercantil que caracteriza este espaço cosmopolita. A diversidade de objectos, na sua grande maioria artesanais, de artesãos, de produtos agrícolas, a música tradicional que se ouvia a cada esquina, a circulação pedonal e motorizada caótica, e muito mais, encantou-me de tal maneira que fiquei boquiaberto.
Tanger, Rabat e Casablanca apresentam já alguns traços de clara influência ocidental, quer nas construções, quer nos comércios ou mesmo nas pessoas, na maneira como se vestem e se relacionam com os seus pares.
Mas voltando à montanha, aqui impõe-se fazer uma breve referência e algumas considerações acerca do povo que aí habita, cujas construções trepam pelas suas encostas, e onde toda a actividade laboral se desenvolve. Falo naturalmente dos Berberes. Vivem de uma agricultura rudimentar, mas de produção variada, de algum comércio de produtos essencialmente artesanais, tais como, a cerâmica, a bijuteria, a escultura em madeira e a tapeçaria, e ainda, claro está, do turismo. Os inúmeros visitantes que aí chegam, seja para fazer alpinismo, Ski, passeios pedestres ou simplesmente para visitar as aldeias típicas, contribuem grandemente para sustentar toda a actividade comercial e de serviços que aí se desenvolvem. Aqui destaco o transporte de bagagem (ou mesmo pessoas) feito por mulas desde de Imlil, pequena localidade situada a 1740 metros de altitude, até ao sopé da montanha, relativamente próximo dos refúgios de montanha que se encontram a cerca de 3200 metros de altitude. Trepando literalmente por um trilho sinuoso e acidentado do vale que nos leva à montanha, é velas transportar cargas que até metem dó, mas com uma passada segura e compassada. Impressionante! O percurso, de uma longitude de 11 quilómetros, demora cerca de cinco horas e meia a fazer-se. Tem a particularidade de passar pelas aldeias de Aroumd (1904m) e pelo santuário de Sidi Chamharouch (2310m).
As experiências e sensações aí vividas levam-me, inequivocamente, a considerar Marrocos um país recomendável a visitar.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Propriedade privada


Apesar de ainda curta, a minha experiência a nível do montanhismo tem-me dado a conhecer pessoas interessantes e outras pouco ou nada interessantes. Felizmente que as primeiras estão em clara maioria.
Sobre as pessoas interessantes, apraz-me dizer que se trata de amigos da escalada e do alpinismo, que tenho feito através dos cursos de montanhismo que tenho frequentado ou simplesmente no entrecruzar de caminhos durante as minhas aventuras na montanha. Comigo têm tido a amabilidade de partilhar uma serie de conhecimentos e experiências, que em muito têm contribuído não só para reforçar a paixão que nutro pela montanha, mas também para melhorar o meu desempenho naquelas disciplinas. Estimulam-nos a acreditar que pudemos fazer sempre mais e melhor e, assim, a abraçar novos desafios.
No fundo, são pessoas que, numa atitude de companheirismo, pretendem simplesmente desfrutar de tudo aquilo que a montanha nos oferece. Algo que só os verdadeiros amantes da natureza compreendem. Falo de gente que entende, e muito bem, que a montanha é para todos e não apenas para um grupo de privilegiados. E é a partir daqui que passo a debruçar-me sobre o outro naipe, ou seja, sobre as tais pessoas pouco ou nada interessantes.
Estas figuras, aparentemente mais preocupadas ou entretidas com o culto da personalidade ou com questões marginais, entendem que a montanha diz respeito tão-somente a uma meia dúzia de figuras distintas e que, por isso, deve ser constituída como uma espécie de propriedade privada. Esta pretensa elite acaba, muitas vezes, por revelar uma ignorância profunda da filosofia que preside ao acto de quem ama verdadeiramente a montanha e que a ela se quer dedicar.
A inveja, o orgulho exacerbado, a esperteza saloia, o egoísmo são alguns dos atributos que caracterizam esta gente, que eu designaria de bando de frustrados ou deserdados da montanha. Quando confrontados com as suas vivências de montanha, nada de admirável têm para contar, muito menos para ensinar.
Como em tudo na vida, temos que ir fazendo a devida triagem…

sábado, 16 de agosto de 2008

Balanço de uma estadia nos Hautes-Alpes

A primeira surpresa surge com a chegada a Briançon. Trata-se da mais alta vila da Europa, situada nos chamados Hautes-Alpes, a 1.326m de altitude. De uma arquitectura medieval, recheada de monumentos, muralhas e de ruas e casas típicas, esta vila, património mundial, está repleta de atractivos que convidam os seus visitantes a uma estadia agradável e convidativa para inúmeras aventuras ou descobertas. Estas poder-se-ão desenrolar ao nível do património, da cultura ou da natureza. A história de Briançon está marcada por invasões, batalhas, incêndios, reconstruções e outros acontecimentos que despertam a curiosidade a todos aqueles que se interessam pelo desenvolvimento das civilizações e pela cultura em geral.
Mas o que na verdade me traz cá são os momentos vividos nesta zona e que marcam um momento precioso nas minhas andanças pelas montanhas. O curso de alpinismo ministrado pela Escola Espanhola de Alta Montanha que viria a frequentar nesta zona situada a sudoeste dos Alpes franceses, para além dos conhecimentos preciosos que me proporcionou ao nível de práticas de técnicas alpinas, fez-me granjear alguns amigos que não esquecerei, alguns dos quais eu espero voltar a encontrar e partilhar projectos de montanha. Num grupo de catorze elementos (onze formandos e três formadores) contavam-se, para além de dois portugueses (eu e um companheiro de montanha), catalãs, valencianos, tenerifenhos, um basco, um navarro e dois galegos. Imaginem a mescla de culturas! Apesar de características particulares, contava-se algo de comum a toda esta equipa: a boa disposição e a paixão pela montanha. O período de formação, decorrido ao longo de uma semana, para além das práticas de aprendizagem, fica particularmente registado por episódios marcados pelo humor, por alguns momentos insólitos e pelo espírito de camaradagem sentido. Este último aspecto merece toda a consideração, pois quem vive na ou para a montanha sabe que ele é imprescindível para atingir as metas que são previamente traçadas quando pretendemos levar a cabo um projecto de ascensão de uma determinada montanha.
A alta montanha impressiona, faz-nos sentir pequenos e, por isso, mais cautelosos. O deslumbramento pela natureza envolvente não nos pode ofuscar a lucidez. Temos de aprender a ler os sinais que ela nos dá, muito embora nem sempre sejam evidentes. Aqui residem os riscos que, dentro do possível, devem ser calculados. A nossa determinação e prudência devem jogar-se de forma a encontrar o equilíbrio. Foi com esta máxima que, no final do curso, decidi atacar a mais alta montanha do sudoeste dos Alpes franceses, a Barre des Écrins (4.101 m), situada no denominado Parque National des Écrins.
De uma configuração e beleza ímpar, a Barre des Écrins é uma montanha que exige uma preparação e alguns conhecimentos técnicos que não se podem descurar. Quando ascendida pela face norte, tal como o fiz, esta termina com um recorrido de cerca de 1.000m de aresta rochosa, com alguns lanços de gelo e neve, que exige técnicas de escalada apuradas e cuidados redobrados pelos diversos perigos que se colocam ao alpinista. Refiro-me ao desprendimento de gelo (dos chamados Séracs), a caída de pedras e um precipício vertical de centenas de metros do lado sul da referida aresta.
A ascensão até à parede onde se inicia a parte de escalada e, de seguida, a aresta, fez-se com tranquilidade e na companhia do meu companheiro de cordada, Carlos Filipe. A partir daqui, e por dificuldades técnicas deste, segui em solitário, apesar do aumento da pressão psicológica. O primeiro sinal estava dado. A partir daqui os cuidados deveriam ser redobrados. Porque são únicos e íntimos não vou relatar os momentos que vivi, enfim, tudo aquilo que me passou pela cabeça, logo que me apercebi que a empresa iria exigir de mim muita prudência, frieza e calculismo. Uma escalada em solitário como a que empreendi, aos olhos de alguns poderá significar coragem, aos olhos de outros, loucura. Para mim nem uma coisa nem outra, apenas determinação e… “seja o que Deus quiser”. O cume chamava por mim, e, quando lá cheguei, agradeci com a humildade que se impõe, traduzida num momento de emoção que se apoderou de mim de uma forma desabrida. Emoções indescritíveis e uma grande lição de alpinismo e de vida …
A descida foi muita cansativa. Ao esforço e cansaço acumulado com a subida, juntava-se alguma desidratação e uma semana de muito desgaste físico, resultante do curso e das poucas horas de sono. Tínhamos pela frente uma marcha com um desnível de 2.227m até chegarmos ao parque onde tínhamos estacionado o automóvel. Apenas fizemos umas breves paragens, primeiro para recolhermos as nossas mochilas de expedição que tínhamos deixado logo no início da ascensão, para nos alimentarmos e tirar umas últimas fotografias.
Fica um sentimento de missão cumprida e, passado poucos dias… saudades.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Evasão


Com as férias à porta, e independentemente do período dedicado ao seu planeamento, certo é que a generalidade das pessoas começam a acertar alguns detalhes, tendo em linha de conta certos factores. Questões financeiras, familiares ou outras poderão pesar na hora de escolher destinos e modalidades.
Se no que respeita ao período de tempo que reservo para a praia não perco muito tempo a fazer planos, decidindo muitas vezes à última hora o destino, já no que concerne à montanha a coisa passa-se de outra maneira. Pouco a pouco vou concretizando projectos ao nível da escalada e do alpinismo, há já alguns anos pensados. Isto, só por si, já é ilustrativo de como eu encaro este desígnio.
Não me irei reter na minha paixão sobre a montanha; penso tê-la explanado suficientemente no meu último artigo. Interessa-me, em breves palavras, falar sobre as principais razões que me levam a ir ao seu encontro, quase como se de um voto se tratasse.
Vejo nas minhas férias passadas na montanha, acima de tudo, um momento de evasão. As razões confundem-se ou misturam-se. Necessidade de combater o stresse e o cansaço acumulados com um ano de trabalho por um lado, necessidade de isolamento, contemplação, conquista e meditação por outro. Mas julgo que o que mais me toma nesse momento, pelo menos no imediato, é a satisfação de que vou estar ausente da dita civilização. Romper com aquela rotina diária de lidar sempre com as mesmas pessoas, ainda que algumas delas sejam grandes amigas (e que logo muito prezo), com os mesmos espaços e partir para a aventura e descoberta é algo de assombroso para mim. Só de pensar na fauna, na flora, nas lagoas ou riachos, ou nas imponentes e diversas formas rochosas que vou encontrar, e algumas escalar, fico desde logo deliciado. Imaginem só quando lá me encontro…
Num próximo artigo dedicarei alguns parágrafos a relatar as experiências vividas e alguns dos episódios que habitualmente marcam este período de evasão, alguns deles autênticas lições de vida.

domingo, 25 de maio de 2008

A Escola da Alta Montanha


Encontrei nalgumas das reflexões produzidas por Friedrich Nietzche na sua obra “Assim falava Zaratustra”[1], o estímulo que procurava, há já algum tempo, para desenvolver uma breve reflexão sobre uma actividade pela qual sou aficionado, e que passo desde já a expor nos parágrafos que se seguem.
Enquanto praticante entusiasta das modalidades de escalada e alpinismo tenho vindo a acumular vivências e experiências que têm contribuído, de forma marcante e definitiva, para a maturação do meu ser. Na montanha tenho buscado, e não raras vezes encontrado, o tónico de que necessito não apenas para revigorar as minhas forças, a minha mente, e assim encarar com maior confiança as adversidades inerentes à minha actividade profissional ou social, mas também algumas respostas de ordem existencial, que me ajudam naturalmente a compreender melhor o meu mundo e o dos outros.
Um dos momentos que mais me aflui quando me encontro em plena montanha é o da consciência da minha insignificância, talvez pequenez, enfim, da percepção das inúmeras futilidades que povoam a vida dos mortais. Nietzche sintetiza-o da seguinte forma: “Aquele que escala as mais altas montanhas ri-se das cenas trágicas do palco como da gravidade trágica da vida”[2]. As agruras fingidas e sentidas adquirem, nesta perspectiva, um mesmo nível de significância, sobretudo para aquele que é capaz de avaliar com toda a lucidez cada uma destas situações, com a necessária distância e com uma percepção despida de preconceitos ou paternalismos, numa atitude ponderada e reflexiva. Eis alguns dos ingredientes que concebem a sabedoria. Mas para atingi-la, para alcançar o cume das altas montanhas, há que partir do nosso interior, há que escavar nas profundezas da nossa alma e tentar encontrar as razões da razão que nos impele a perseguir tal desígnio. Zaratustra, a figura criada por Nietzche na supra-referida obra, interrogando-se sobre a origem das montanhas mais altas, concluía que estas provinham do mar, pois segundo dizia, “O testemunho está escrito nas suas rochas e nas paredes dos seus cumes. O mais alto tem que atingir a sua altura a partir das suas profundezas”[3].
Ao sujeito pensante impõe-se-lhe a assumpção de uma dedicação permanente na busca do conhecimento; é-lhe exigido um temperamento peculiar, um conjunto de atributos. Segundo Nietzche, “A sabedoria quer-nos corajosos, despreocupados, trocistas, imperiosos; ela é mulher e apenas sabe amar um guerreiro”[4].
Confesso que não me é fácil descrever com exactidão o que sinto ou o que busco quando me encontro em plena montanha. Talvez por receio de cair em relativismos ou tornar o meu discurso demasiado lírico. No entanto, tenho a plena consciência do muito que ela exige. Desde logo a capacidade de nos abstrairmos do supérfluo, do mesquinho, e concentrarmo-nos na essência das coisas, para ver muito para além das aparências. Numa palavra, exige-nos abnegação. Como salienta Nietzche, “É preciso aprender a abstrair-se de si, para ver muito mais”, considerando que “esta droga é necessária a todos os alpinistas”[5].
Os desafios que se colocam ao alpinista são elevados. Talvez por isso sejam mais desejados. Sabe quem já o experimentou que a conquista do cume tem um sabor especial, sobretudo quando precedida da suplantação de um conjunto de obstáculos. E se a subida nos cobra muito do corpo e da mente, a descida não nos exige menos. O saber adquirido não é estanque; a humildade com que atingimos o cume, a sabedoria, terá que ser a mesma com que regressamos ao campo base, ao fundamento. A aprendizagem lograda nesse percurso ficará inscrita no nosso ego, com repercussões significativas no nosso amadurecimento e nas nossas relações interpessoais.
Digo com frequência que o alpinismo exige dos seus praticantes uma boa dose de determinação e outra de prudência, devendo estas ser geridas de forma equilibrada. A montanha não nos reclama medo, mas sim respeito. A determinação exige-nos coragem, e a prudência lucidez. E sobre coragem, Nietzche faz uma reflexão que julgo traduzir em parte aquilo que deverá ser o espírito do alpinista: “Coragem tem aquele que conhece o medo mas que o domina, aquele que vê o abismo mas que se orgulha disso”[6].



[1] NIETZCHE, Friedrich (s/d). Assim falava Zaratustra. Colecção Grandes Génios da Literatura Universal. Amadora: Ediclube.
[2] Op. cit., p. 39.
[3] Op. cit., p. 137.
[4] Op. cit., p. 39.
[5] Op. cit., p. 136.
[6] Op. cit., p. 252.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Razões do nome do blog

Enquanto apaixonado pela montanha e pela natureza, decidi dar um nome que consubstanciasse essa paixão com a minha actividade profissional, o ensino. O montanhismo, em geral, e o alpinismo e a escalada, em particular, são actividades que me têm proporcionado inúmeras experiências e aprendizagens de valor incalculável, transferíveis a diferentes contextos. Todo o trabalho de planificação e acção nelas envolvidas reclama um processo pedagógico semelhante ao da actividade docente. Naturalmente que existem diferenças significativas entre ambos os casos. Todavia, muitas das lições que delas se retiram têm muito em comum. O amor, o respeito, a entrega, a exigência ou a dedicação são valores a considerar, quer na relação com a montanha, quer na relação com os alunos. Mas para uma melhor clarificação do que me vai na alma, quando me debruço sobre estes temas (montanha e educação), prefiro recorrer às preciosas informações prestadas por um amigo, Ilídio Cadíme - diga-se, um homem das letras e de uma cultura assinalável -, e que passo a citar:
"A montanha está associada à sabedoria. Nos Lusíadas, os nautas, como prémio da sua obra, recebem as ninfas e vão ao cimo do monte contemplar a máquina do mundo". Obrigado Ilídio.