terça-feira, 27 de janeiro de 2026

2026 e mais além

Ainda mal o ano começou e já são tantas as nuvens negras a pairar.
Não me vou alongar em considerações sobre o “Nero” que governa a maior potência económica e militar do planeta, mas apenas lembrar que boa parte dos distúrbios e perigos que se vêm notando se devem muito a esse déspota. Acresce o efeito de contágio sobre outros devotos seguidores e estagiários, assaz doutrinados. E já são muitos. Incluindo por cá. Já não bastavam outros ditadores e autocratas a perturbarem a ordem mundial, como o senhor do Kremlin, e tínhamos de voltar a arcar com esse pirómano, agora mais agressivo e despudorado do que nunca. A incerteza e o medo vieram para ficar. Por quanto tempo, é algo que ninguém certamente se atreverá a conjecturar.
Hoje, em todo o mundo, o número de autocracias é já maior do que o das democracias. É o que nos dá conta o Relatório da Democracia 2025, do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Os dados do estudo mostram que o mundo tinha, ao final de 2024, 88 democracias e 91 autocracias, uma inversão em relação ao ano anterior. O crescimento da extrema-direita, em particular na Europa, e a sua em entrada em executivos de vários países faz perspectivar que as estatísticas irão destacar, ainda mais, os governos autoritários. A História repete-se, diria Hannah Arendt.
Hoje, a geopolítica redefine-se em 3 grandes blocos: EUA, China e Rússia. O neo-imperialismo, associado à cobiça de velhos e novos recursos naturais, está a fazer o seu caminho. A sôfrega busca de lucro e o desalinhamento brutal dos pratos da balança da justiça social e económica tem tido como resultado o crescente fosso entre ricos e pobres, entre afortunados e deserdados, já para não falar nas questões ambientais. Tem dado um poder desmesurado, nalguns casos acima dos próprios Estados, a alguns multimilionários, como o caso de Elon Musk, que não hesitam em minar democracias.
A Europa anda atordoada e ainda não encontrou um fio condutor que agregue todos os países, de modo a afirmar-se como um bloco económico e militarmente coeso e forte, verdadeiramente federado, e assim conquistar o respeito e a relevância que se lhe exige. O contundente e lúcido discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no passado dia 20 em DAVOS, no Fórum Económico Mundial, amplamente elogiado, é um guião sobre o qual os líderes europeus deveriam inspirar-se.
A inquietação, o sentimento de insegurança, o medo e a de falta de perspectivas quanto ao futuro faz sentir-se em diferentes faixas etárias. E desenganem-se aqueles que pensam que os mais jovens estão alheios a estes acontecimentos. Não, não estão. Pais, professores e outros agentes da sociedade constatam-no. Alguns desses comportamentos vão-se revelando em diferentes contextos, seja em ambiente familiar, escolar e em especial nas redes sociais. Neste último, o caso é mesmo preocupante. São inúmeros os estudos que vêm dando conta do agravamento dos problemas cognitivos, psicológicos, emocionais e sociais, não só nos mais jovens, como nos adultos.
A devassa da vida privada, a mentira, a desinformação, o embriagamento das mentes, a agressividade, o insulto e a ameaça tomaram conta do espaço virtual, sendo, nalguns casos, transpostos para o espaço público. Caminhamos para um mundo distópico que parece superar a imaginação de George Orwell.
Agora a Inteligência Artificial. Tal como aconteceu com as redes sociais, quando surgiram, a IA volta a despertar o interesse dos mais entusiastas, que só vêem nela apenas ganhos, descurando uma necessária análise crítica sobre o que de negativo ou perigoso ela poderá aportar, como aliás já se está a verificar. Se a regulação desta nova tecnologia for a mesma que se verifica com as redes sociais, então estamos conversados!
Um estudo levado a cabo por uma equipa do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA) e apresentado publicamente no final de Junho de 2025, concluiu que os grandes modelos de linguagem (mais conhecidos como LLM, da sigla em inglês) podem prejudicar a aprendizagem, sobretudo no caso dos utilizadores mais jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. Mais concretamente, que ChatGPT e os seus primos podem estar a prejudicar a nossa capacidade de pensamento crítico.
Numa recente entrevista à revista do Expresso (Edição 2774, 26/12/2025), um dos mais conceituados neurocientistas do mundo, António Damásio, alerta para o facto de que toda a inteligência artificial, que está a ser criada pela inteligência natural, pela nossa capacidade criativa, poderá um dia ganhar autonomia. Admite a “possibilidade de alguns desses organismos se transformarem em organismos rebeldes e começarem a ter uma certa autonomia. E aí o futuro é perfeitamente aterrador. É previsível que isso possa acontecer. Depois, é imprevisível dizer quais seriam as consequências e qual o modo como seria possível controlar um tal desenvolvimento.” Em que saga cinematográfica de ficção científica já vi isto?!