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terça-feira, 30 de junho de 2020

Sem fins lucrativos


“(…) as humanidades e as artes proporcionam competências
essenciais para manter a democracia de boa saúde (…)”

Martha C. Nussbaum


Este é o título dado a um livro de Martha C. Nussbaum, filósofa norte-americana com uma vasta obra sobre temas diversos, dos quais destacaria a filosofia grega, a filosofia política e a ética. Publicado pela primeira vez em 2010, o livro tem como subtítulo, “Porque precisa a democracia das humanidades”. Num período em que várias democracias se vêem ameaçadas por extremismos, pelo renascer de movimentos xenófobos e racistas, pela ascensão de partidos de extrema-direita ao poder, juntando-se ainda as manifestações a que temos assistido um pouco por todo o mundo, despoletadas pela morte do afroamericano George Floyd às mãos de um polícia, a obra em referência merece ser lida, para que paremos um pouco para reflectir sobre o rumo que humanidade perigosamente vem seguindo. Tendo por base a maiêutica socrática, Nussbaum destaca a importância central das humanidades em todos os níveis de ensino, discorrendo sobre as razões pelas quais deverão ser consideradas incontornáveis para a criação de cidadãos democráticos competentes e para a coesão social.
O título, “Sem fins lucrativos”, surge a propósito de uma certa mentalidade instalada, que começa desde logo em casa, mas que está igualmente presente na sociedade em geral, nos governos e no ensino. Qual o pai ou mãe que não sustem a respiração quando um filho decide enveredar por um curso superior de artes ou de humanidades? Logo são tomados pela preocupação com o futuro económico ou financeiro do seu educando, revelando, deste modo, um ponto de vista centrado apenas na rentabilidade. Nussbaum rejeita a ideia de que a educação seja vista, acima de tudo ou quase em exclusivo, como um instrumento para o crescimento económico. Tomando como principal exemplo o sistema educativo americano, a autora ilustra vários casos em que as humanidades e as artes têm sido subalternizadas nos diferentes níveis de ensino, destacando o superior. Neste, a aposta continua a fazer-se nas ciências, nas tecnologias, nas engenharias, na matemática e afins. As disciplinas que permitem o estudo da literatura, das artes, da filosofia e de outras áreas das humanidades têm sido paulatinamente eliminadas, por se considerarem “inúteis” ou supérfluas, ficando os currículos esvaziados desta componente essencial ao desenvolvimento do pensamento crítico e independente, do sentimento de comunidade, de uma consciência ecológica e de uma cidadania plena. E assim estarão os decisores a contribuir para que continuemos enredados neste mundo da “pós-verdade” e dos “factos alternativos”!
No entanto, partindo de vários exemplos elucidativos, a autora faz ver como as humanidades são importantes para a inovação e para o tão desejado sucesso económico e empresarial. Inclusive cita casos de responsáveis de grandes empresas que reconhecem a importância de ter nos seus quadros mentes abertas, flexíveis, criativas, com pensamento crítico, com capacidade de resolução de problemas, competências, estas, tão caras às humanidades e às artes. Outro argumento apresentado pela autora, ao qual não são indissociáveis as questões que atrás mencionei, quando me referia a extremismos e aos acontecimentos que têm estado na praça pública, prende-se com questões existenciais, com a nossa relação com os outros e com a cidadania. Aqui, sublinho duas das conclusões de Nussbaum, quando defende o papel das humanidades na educação do sujeito: a primeira, a de que a batalha por uma democracia responsável e uma cidadania vigilante não só é urgente como possível vencer; a segunda, e aqui cito, “Uma educação adequada para viver numa democracia pluralista deve ser multicultural, isto é, deve familiarizar os estudantes com alguns aspectos fundamentais das histórias e culturas dos muitos grupos diferentes com quem partilham leis e instituições. Estes devem incluir grupos de cariz religioso, étnico, económico, social e de género”.
Em síntese, Nussbaum defende uma educação naquilo que designa de “artes liberais” (e que abarca as humanidades e as artes), que reconhece que o ensino superior deve preparar os estudantes não só para uma carreira, mas também para uma plena cidadania e para a vida. 

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A utilidade do inútil


“O verdadeiro inimigo da espécie humana não é o pensador temerário ou
irresponsável, esteja ele certo ou errado, mas sim aquele que tenta moldar o
 espírito humano de forma a que ele não se atreva a abrir as asas e voar (…)”
Nuccio Ordine


Este é título que dá nome a um manifesto escrito por Nuccio Ordine, filósofo e professor de literatura italiana na Universida­de da Calábria. A obra dá conta de como a lógica utilitarista e o culto da propriedade acabam por definhar o espírito das pessoas, colocando em risco não só a cultura, a criatividade e as instituições de ensino, mas também valores fundamentais como a dignidade humana, a justiça, a solidariedade, a tolerância, a liberdade, ou tão-só o amor e a verdade. Valendo-se da reflexão de grandes filósofos e escritores, Nuccio Ordine faz-nos perceber que nem mesmo em tempo de crise só é útil o que gera lucro ou que tenha utilidade prática. Para tal, as suas considerações gravitam em torno da ideia de utilidade de todos aqueles saberes cujo valor substancial se encontra despojado de qualquer finalidade utilitária, saberes esses, como sublinha o autor, que podem ter um papel capital na educação do espírito e no desenvolvimento cívico e cultural da humanidade. 
Numa Europa da economia e da finança, dos negócios e dos orçamentos, dos números e das estatísticas, numa Europa da perda de direitos e apoios sociais e laborais, do ataque aos Direitos Humanos, o direito de ter direitos é, como diz Nuccio, “subordinado ao domínio do mercado, com um risco crescente de eliminar qualquer forma de respeito pela pessoa. Transformando os homens em mercadoria e dinheiro (…)”. O mesmo questiona, de forma algo indignada, se as dívidas soberanas terão o condão de apagar as “dívidas” mais importantes, contraídas ao longo dos séculos em relação a quem nos legou um extraordinário património artístico e literário, musical e filosófico, científico e arquitectónico. É, por isso, neste contexto bárbaro que o filósofo defende que “a utilidade dos saberes inúteis contrapõe-se radicalmente à utilidade dominante que, em nome de um interesse económico exclusivo, vai matando progressivamente a memória do passado, as disciplinas humanísticas, as línguas clássicas, a instrução, a investigação livre, a fantasia, a arte, o pensamento crítico e o horizonte cívico que deveria inspirar todas as actividades”. De forma irónica acrescenta que “no universo do utilitarismo um martelo vale mais do que uma sinfonia, uma faca mais do que um poema, uma chave inglesa mais do que um quadro, porque é fácil perceber a eficácia do utensílio e cada vez mais difícil compreender para que serve a música, a literatura ou a arte”. 
A campanha eleitoral para as europeias mostrou bem o vazio de ideias e propostas dos diferentes candidatos e partidos sobre a promoção e o investimento na Cultura, já para não falar noutros temas igualmente relevantes. Para além do discurso politiqueiro e remoques rotineiros, do equívoco entre as governações de S. Bento e de Bruxelas, a campanha e o debate teve como mote de discussão, ad nauseam, o corte de 7% para Portugal nos fundos europeus no próximo quadro comunitário, a que se juntou os costumeiros temas da economia, da banca e, claro está, de José Sócrates! 
Contra a corrente, um grupo de quatro ex-ministros e secretários de Estado que foram responsáveis, há relativamente pouco tempo, pela pasta da Cultura de França, Itália, Portugal e Espanha, juntaram-se para apresentar um conjunto de 7 propostas para afirmar a Cultura como um elemento essencial para a consolidação do projecto europeu, procurando sensibilizar os eleitores europeus e os candidatos ao Parlamento Europeu. “A Cultura no projecto europeu” é o título do artigo publicado no passado dia 20, no jornal Público, onde os quatro ex-governantes, a uma só voz, defendem que a Cultura tem um papel fundamental não só no desenvolvimento económico, mas também nas políticas de inclusão social, na promoção da diversidade cultural europeia, na afirmação de uma literacia plena e consequentemente de uma democracia dos cidadãos. Talvez essas propostas possam ser um bom ponto de partida para dar início a um processo de “depuração” e revitalização da sociedade, de modo a que a mesma tome consciência, como diz Nuccio Ordine, “de que a literatura e os saberes humanísticos, a cultura e a instrução, constituem o líquido amniótico ideal em que as ideias de democracia, de liberdade, de justiça, de laicidade, de igualdade, de direito à crítica, de tolerância, de solidariedade, de bem comum, podem conhecer um desenvolvimento vigoroso”.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

“Feriados”… tempos de aprendizagem

Já se poderá dizer que longe vão os tempos em que os alunos podiam aprender, ou se preferirmos, adquirir determinadas competências, nos tempos livres que resultavam das faltas de presença de determinados professores, mais conhecidos por “feriados”. Lembro-me bem como eram proveitosos esses momentos, quando fui aluno do ensino básico e secundário. Hoje, a escola desenvolveu um conjunto de mecanismos e medidas, ou por despacho ministerial, ou por iniciativa própria, para manter “aprisionadas” as crianças e jovens entre quatro paredes. Sem qualquer conhecimento empírico, é verdade, mas apenas por experiência, por aquilo que vou observando e pela troca de impressões que vou tendo com colegas de outras escolas, quer-me parecer que os resultados pretendidos com tais medidas ainda não surtiram os efeitos desejados. Por quem? Isso daria outra longa conversa! Adiante.
Se virmos bem, pelo menos nós, professores, a percentagem de “feriados” sempre foi irrisória, quando comparada com o quadro global de assiduidade dos professores. Por outro lado, existem professores que, não sendo os mais assíduos, conseguem proporcionar um maior número de aprendizagens que outros que o são. É uma questão de, primeiro, vocação, segundo, de organização e eficiência. Além disso, conhecemos, nós professores, as implicações e complicações inerentes a uma substituição de um colega faltoso: muitas vezes o professor substituinte não é professor da turma, da disciplina em questão, ou ambos os casos; outras vezes o professor que faltou não deixou ou não teve tempo de deixar um plano de aula; noutros casos, o professor substituinte nem sequer devia estar no ensino (!); noutros, o espaço de aula não se adequa à disciplina ou à aula a leccionar; e… não me lembro de mais nenhuma situação! Mas algo me diz que teria mais alguma a acrescentar! Mas o pior é a (pouca ou nenhuma) motivação dos alunos para frequentar uma aula que lhes retirou a possibilidade de desfrutar de momentos de prazer e, claro está, de aprendizagem não formal ou informal.
Não percamos tempo a cogitar sobre a forma como os alunos aproveitariam os ditos tempos livres. Eles sabem-no bem como fazê-lo! Simplesmente porque nós, quando éramos da idade deles, também o sabíamos. Não é preciso muita imaginação e criatividade para tal. Os próprios pais e encarregados de educação encarregam-se de tal nobre tarefa educativa.
Vamos ao que interessa. Então o tempo livre dos catraios e gandulos não pode ser aproveitado, de forma mais ou menos pedagógica, para, por exemplo (vejam só esta minha mente iluminada!), passear e apreciar os espaços escolares (espaços públicos e, por isso, passíveis de desenvolver acções e competências de cidadania) e partir daí, quem sabe (!), para a apresentação de propostas de embelezamento destes mesmos, tornando-os, quiçá, mais funcionais; fazer uma visita à biblioteca de livre e espontânea vontade e não obrigados; jogar, praticar desporto; frequentar clubes; dialogar com outros agentes educativos do espaço escolar; fazer novas amizades; namorar… sim, namorar, e tudo aquilo que este acto instintivo acarreta ou determina numa relação natural e necessária para dar resposta a necessidades afectivas e para o próprio equilíbrio emocional do aluno? Outras formas de ocupar os “feriados” poderiam ser aqui relatadas mas, para além de eu não ser obrigado a lembrar-me de tudo (!), importa-me explorar esta última, lembro: namorar.
Num momento em que a educação para a saúde, e em particular a educação sexual, entraram, em termos formais, nas escolas, as crianças e jovens necessitam indiscutivelmente de um espaço e de uma ocasião para desenvolver as suas relações afectivas e amorosas, imprescindíveis ao desenvolvimento interpessoal e para o próprio processo de sociabilização. Alguém terá consciência dos males que provocam ao limitar o conjunto de aprendizagens inerentes a este acto humano? Muitos alunos encontram na escola o único espaço e período em que podem estabelecer relações de amizade e de afecto com o próximo, e assim procurarem dar resposta a necessidades vitais. Deixemo-nos de hipocrisias e sejamos conscientes e racionais, quando tomamos decisões que podem influir, positiva ou negativamente, no crescimento, maturação e comportamento dos alunos.

terça-feira, 30 de março de 2010

SEXO


Lamento desapontar os meus leitores, pois apesar de sugestivo, não me vou debruçar sobre o tema para o qual o título aponta! Pretendo tão-somente fazer um teste recomendado por um amigo. Dizia-me este, um dia, que se quisermos ver subir o número de visitas/leitura de um texto por nós publicado, há que surgir com um título bastante sugestivo ou um tema que é muito caro ao mais comum dos mortais. E aqui está: SEXO! Quem é que não fala ou, pelo menos, pensa nele diariamente? Nos próximos dias irei confirmá-lo através do contador de visitas deste Blog.
Na verdade, verei se a maioria das consultas feitas na Internet têm como principal propósito a pesquisa de temas ou questões que possam ser úteis para enriquecer ou elevar o conhecimento de quem as efectua, ou simplesmente para satisfazer curiosidades (legítimas) mais mórbidas ou lascivas.
Não pretendo, de modo algum, traçar um perfil do cibernauta português (uma vez que estes são claramente a maioria dos meus visitantes), e muito menos fazer generalizações abusivas, sem qualquer suporte científico.
Provavelmente no próximo artigo (se não me esquecer!) registarei, quiçá numa nota de rodapé, uma breve conclusão acerca dos resultados desta minha iniciativa. Todavia, temo não contribuir com algo de novo para a ciência... talvez mais pela eventual incapacidade de explicá-los, do que pela sua pertinência!

Até lá…

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O maior dos
desideratos

Mais uma época natalícia que termina, e com ela mais um período de consumismo desenfreado, que se junta a mais um débito alargado de votos de um bom ano novo. Passada esta temporada tudo volta ao normal. Os gestos de solidariedade esvaem-se e cada um segue o seu ritmo de vida, com maiores ou menores constrangimentos. O que fica? Todos os valores, ou pelo menos uma boa parte deles, passam para segundo plano. Cada um regressa à sua rotina, tentando viver conforme sabe ou pode.
Que lugar toma o amor no meio disto tudo? Que proveito retiramos das nossas relações com os demais, sobretudo das pessoas que nos são mais próximas? O que queremos de nós e dos outros? Mais fácil de perguntar do que responder, certamente! Creio ser imperioso começar por procurar respostas para sossegar os nossos ímpetos, de modo a pacificar a nossa alma e assim encontrar um equilíbrio emocional. Nem sempre conseguimos o que desejamos, mas neste efémero caminho que representa a nossa vida necessitamos de usufruir de momentos que nos realizem, que nos encham de alegria e que nos permitam pequenas, mas sólidas conquistas. É assim que concebo a vida, passo a passo, tentando realizar-me com o proveito que recolho de cada experiência e com ela recriar o meu mundo. E assim vamos construindo a nossa sabedoria, um património de conhecimentos e valores.
E sobre sabedoria, Nietzsche dizia que ela “quer-nos corajosos, despreocupados, trocistas, imperiosos; ela é mulher e apenas sabe amar um guerreiro” (Nietzsche, s/d: 39). A meu ver, corajosos, porque a vida é feita de riscos, conflitos e barreiras, que desafiam e põem à prova as nossas capacidades. Despreocupados, no sentido de não nos deixarmos prender demasiado com questões ou situações laterais, menores, mantendo, entretanto, um distanciamento atento e consciente daquilo ou daqueles que apenas não se identificam com o nosso conceito de felicidade. Trocistas, porque a vida também nos exige, por vezes, ousadia, atrevimento e algum sarcasmo, para nos libertarmos, por exemplo, da forma desdenhosa como alguns nos olham. Imperiosos, porque necessitamos de determinação, persistência e domínio, para tentar conquistar os nossos desideratos. E qual o maior de todos senão o do amor? De que vale, ou qual o significado de uma vida sem afectos, carinho, paixão… lá está, de amor? Nenhum.
O amor necessita de asas para voar e planar sobre o mar dos desejos, em busca do deleite. Para tal, precisamos de uma consciência despida de preconceitos, da liberdade que nos permita tirar partido dos momentos que nos dão prazer e nos realizam. Necessitamos de nos libertar das amarras interiores e exteriores que nos enclausuram. A nossa liberdade dependerá igualmente da liberdade dos outros. Só assim o amor poderá resultar em comunhão.


BIBLIOGRIA:

NIETZCHE, Friedrich (s/). Assim falava Zaratustra. Colecção Grandes Génios da Literatura Universal. Amadora: Educlube.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Razões do coração

Um olhar, um gesto ou uma simples palavra podem mudar o sentido ou o rumo das nossas crenças ou vidas. Sem pôr em causa o valor das nossas vivências ou experiências, podemos ser acometidos por uma reflexão que nos leva a questionar o que somos, o que pretendemos, as opções que tomamos ou onde queremos chegar. Tratar-se-á, eventualmente, de tentar ver com mais clareza a realidade dos factos. Ou será que simplesmente procuramos seleccionar factos para desenhar a realidade que melhor nos convém?
Embora nem sempre de forma oportuna, alguns dos nossos momentos de indagação são marcados por uma vontade irrefreável de desabafo, de libertação. É como se o nosso coração, em mar revolto, desprezasse a razão e quisesse resgatar o direito e a liberdade de sentir e partilhar as emoções que o agitam. Isto faz-me lembrar a clássica dialéctica entre o coração e a razão. Dizia Pascal que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Raymond Radiguet remata, dizendo que, “Se o coração tem razões que a razão desconhece, isso deve-se ao facto da razão ser menos sensata que o coração”. Será mesmo assim!? Na esteira de Goethe, onde está a “verdade que se pode tocar com as mãos"? Aquela que nos possa assegurar a certeza das opções tomadas? Será que o amor, tal como diz Montaigne, “não é senão o desejo furioso de algo que foge de nós”? Não estaremos, aqui, a entrar no domínio da obsessão? Até onde vão os limites do amor? Estaremos certamente confrontados com perguntas de difícil ou impossível resposta... se, ou quando realmente as desejamos obter!
Paixão, desejo, sedução, aventura, erotismo, masoquismo, sexo, luxúria, deleite, loucura, criação, arte, verdade, mentira, tolerância, compromisso, medo, risco, são algumas das muitas palavras ou actos que podem estar ou ser associados ao amor. O que não se faz ou se arrisca por amor a alguém! Certo parece ser que amar pressupõe a partilha de afectos, carinho, compreensão, respeito, entre outros. O olhar, a carícia, o beijo ou o afecto são essenciais para alimentar e fazer perdurar o amor. Como dizia Nataniel Hawthorne, “As carícias são tão necessárias para a vida dos sentimentos como as folhas para as árvores. Sem elas, o amor morre pela raiz”. Mas também já ouvi dizer que o verdadeiro amor nunca se apaga, não tem fronteiras geográficas ou afectivas... é eterno. Daí a importância e o valor da memória, capaz de registar momentos únicos e intemporais, capaz de doar testemunhos a novas gerações ou, quem sabe, a novas reencarnações. Porque não acreditar?
Para que a entrega ao mais nobre acto do ser humano resulte em felicidade, será necessário, no meu entender, começar por aprender a contemplar, apreciar e valorizar o belo. É a educação estética! Só os sentidos vigilantes e receptivos são capazes de fruir a essência da beleza, pois, como lembra Nietzche, “a beleza fala em voz baixa; apenas penetra nas almas mais despertas”.
Gosto de olhar com a máxima profundidade e sem preconceitos o belo. Tentar penetrar no seu âmago para sorver a sua seiva, alimentar e enriquecer os meus sentidos, alegrar a minha alma. Gosto de me deleitar com a poesia da doce Érato, enquanto ela me afaga e me envolve nos seus braços. Sentir a sua pele macia e perfumada, enquanto me sinto entorpecido pelas fragrâncias do Olimpo. Lugar onde o corpo e a alma, prisioneiros do amor, se entregam à volúpia e se deixam levar pelo indomável desejo de posse. Onde umas mãos que seguram firmemente um rosto se fazem acompanhar de um olhar lancinante, que não mente sobre o que sente, culminando num beijo ávido e prolongado, só ele capaz de verter a verdadeira dimensão do desejo e da paixão.
Mas... mas para tal, há que ter a capacidade de nos demarcarmos do supérfluo ou acessório, por um lado, e de sermos abnegados, por outro. Como destaca Nietzche, “É preciso aprender a abstrair-se de si, para ver muito mais”, acrescentando logo de seguida que “esta droga é necessária a todos os alpinistas”, numa clara alusão àqueles que anseiam conquistar a sabedoria, metaforizando, o cume das montanhas. Não é por acaso que os presumidos não chegam a ser verdadeiros “alpinistas”. Já alcancei o cume de algumas belas e altas montanhas, e para tal tive que o fazer, é certo, com ambição, paixão, coragem, determinação, sacrifício, risco, mas também com humildade e respeito. Julgo eu que só assim se pode amar! E assim tenho amado, numa alternância permanente entre momentos de voracidade e momentos de brandura...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Em busca da essência da beleza…


O belo e o feio existe. Não se trata apenas de uma questão de gosto ou de preferência. Não comungo, de forma alguma, com a expressão de que “gostos não se discutem”. Compreendo que para alguns seja difícil justificar os seus gostos, mas se gostamos de algo ou de alguém haverá necessariamente uma ou mais razões que fundamentem as nossas escolhas.
Numa singela mas objectiva análise, pretendo nas próximas linhas fundamentar o que me leva a alimentar duas paixões: a montanha e a mulher. Falo naturalmente de montanhas e mulheres belas!
Se é verdade que por vezes as aparências iludem, também não é menos verdade que a aparência revela a sua essência. Disso sou testemunha.
Quando olhamos para uma bela montanha ou para uma bela mulher, e se, claro está, tivermos os sentidos apurados, se tivermos sensibilidade estética, se nos sentirmos atraídos, logo somos impelidos a conhecer o seu íntimo, ou como dizia, a sua essência. É a sedução que, implícita ou explícita, acaba por nos arrebatar, podendo levar-nos a embarcar numa aventura. Naturalmente que não bastará sermos sensíveis à beleza das formas ou das pessoas. Para tal façanha, a do desejo de conhecer na intimidade qualquer um daqueles dois mundos misteriosos, necessitamos por um lado de audácia, sabedoria, compreensão e respeito, e por outro de muita paixão e alguma loucura.
Os padrões sociais ditam o que é normal ou anormal. O que é uma conduta correcta ou incorrecta. O que é aceitável ou inaceitável de acordo com os valores vigentes. Pois, confesso que muito do que aprendi, e tenho aprendido, consegui-o transgredindo alguns desses padrões, que, lembremos, e à semelhança dos gostos, são naturalmente discutíveis à luz de uma ou outra perspectiva. Algumas das aprendizagens que tenho logrado, têm na sua sequência um acto de transgressão ou de irreverência. Quem nunca sentiu desejo ou prazer em transgredir?
Não nego que já corri riscos nalgumas escaladas que empreendi. Já caminhei no fio da navalha. Já olhei nos olhos do precipício. Houve montanhas que tentei escalar e não consegui. Quem ama a montanha sabe que, por muito bom senso que nos guie, é difícil recuar perante um intento tão desejado, quando não há condições para prosseguir. O desejo de chegar ao cume, ao íntimo, à essência é de tal modo dominador que nos entristece quando não o conseguimos. E no entanto daqui retiramos lições. Tal como a mulher bela, a montanha só nos deixa chegar até onde ela quer.
Todavia, nunca me arrependi de tentar subir as montanhas, cujo topo não consegui alcançar. Porquê? Porque o percurso feito até ao nível a que cheguei proporcionou-me aprendizagens que me poderão ser úteis para voltar a tentar a mesma montanha, talvez recorrendo a outras estratégias ou então seguindo por outras vias. É uma loucura? Depende da perspectiva.
Podemos não conquistar a montanha ou a mulher que tanto desejamos, mas o facto de termos estado tão próximo do topo, do âmago, da volúpia, de ter sorvido parte da sua essência, de com ela termos aprendido e amadurecido pela fruição da sua beleza, são já razões suficientes para fazer-nos acreditar que valeu a pena o esforço. Valeu porque tivemos momentos felizes e que seguramente a memória registará para sempre. Logo, creio que não nos devemos arrepender de ter tentado alcançar o firmamento, de ter tentado tocar o rosto de um angelus. Resta-nos, humildemente, descer com a mesma nobreza com que subimos.

Há um provérbio (creio que chinês!) que diz que quanto mais alto subimos uma montanha, mais cansados ficamos, mas mais bela é a vista. É essa a vista que procuro fruir.

sábado, 20 de dezembro de 2008

É Natal


Ano após ano repetem-se os mesmos votos, os mesmos desejos, e assim, os mesmos clichés. Com que sinceridade o faremos? Até que ponto o infortúnio dos mais desprotegidos nos toca? Qual o nosso grau de entrega por causas como o combate à fome, à doença ou à pobreza? Sem dúvida que estas questões nos dão que pensar! Por outro lado, isto levar-nos-ia a repensar, entre outras coisas, o conceito e o papel da cidadania.
Apesar de efémero, o Natal é naturalmente um momento de alegria, mas apenas para aqueles que são capazes de sonhar e de materializar alguns dos sonhos. Não vou aqui fazer o discurso da lamúria ou da resignação, até porque eventualmente acabaria por tomar emprestado alguns dos ditos clichés.
Derivada do latim ‘natalis’, a palavra Natal significa nascimento. Deixando de parte, com o devido respeito, a história do menino Jesus, gostaria apenas de desenvolver uma curta reflexão sobre a associação deste conceito ao de ‘felicidade’.
Logo que tomamos consciência da nossa existência, e à medida que vamos amadurecendo e aprendendo com as contingências da vida, vamos construindo o nosso conceito de felicidade. O que nos faz feliz varia de sujeito para sujeito. O objecto de desejo é, enfim, o móbil para conseguirmos a felicidade. Por qualquer estímulo, e por diferentes origens, algo nasce e cresce dentro de nós, necessitando de ser saciado. Todos os dias nascemos e sujeitamo-nos ao imprevisto. Independentemente de qualquer precaução que tomemos, nada impedirá que possamos ser surpreendidos por um qualquer facto inimaginável que surja, e que poderá mudar o rumo de um futuro que julgávamos certo… quiçá para um destino melhor!
Escalar uma montanha, passear, contemplar uma obra de arte, ler um bom livro, pintar um quadro ou ter uma conversa interessante com uma pessoa interessante são, para mim, momentos de felicidade. O somatório destas e de outras experiências dão corpo a um reportório que vamos construindo, que nos enriquece, alimenta e tempera a nossa vida. Partilhá-lo faz de nós pessoas mais sociáveis, desejadas ou amadas, e por isso mais felizes.
Desprendemo-nos das futilidades do nosso quotidiano rotineiro, vivamos um dia de cada vez e façamos deste curto momento, que é a vida, uma experiência única, válida e gratificante.

Bom Natal

domingo, 28 de setembro de 2008

Leitura interior


Em inúmeras situações da nossa vida caímos na necessidade de desenvolver algumas cogitações sobre o caminho a tomar que consideramos mais acertado. Somos impelidos a reflectir sobre as nossas capacidades para atingir determinadas metas que traçamos. Nem sempre essa leitura resulta fácil, quer pelas condicionantes que se possam levantar, quer pelas consequências que poderão advir das decisões tomadas.
Certo parece ser que não nos devemos ficar por um mero exercício especulativo, pela presunção de que o nosso saber acumulado é, por si só, suficiente para atacar os desafios que nos afrontam. Tampouco deveremos confiar, de forma acrítica, em máximas, pois lembremos que estas se desenvolvem em determinados contextos sociais ou históricos, não sendo, por isso, passíveis de generalização abusiva. Estaríamos provavelmente a correr riscos se partíssemos do princípio que as mesmas garantiriam o sucesso dos nossos actos. Tal como metaforicamente sublinha F. Nietzsche (s/d), “Aquele que escreve com sangue e em máximas, não quer ser lido mas aprendido de cor. Nas montanhas o caminho mais curto vai de cume a cume; mas é preciso ter pernas altas. É necessário que as máximas sejam cumes e aqueles a quem as destinas sejam fortes e altos” [1]. Pois claro, a mera retórica pode-nos atraiçoar.
Impõe-se, claro está, uma leitura profunda do nosso interior, das profundezas do nosso ego. Este, tão complexo que é, deixa-nos, por vezes, num desassossego sem limites. Quem somos nós, o que queremos, para onde nos dirigimos são algumas das questões que nos colocamos. As respostas podem não chegar, ou então simplesmente tardar, e então aqui podemos cair no embaraço das opções a tomar. No entanto, este exercício filosófico não deverá inibir-nos de prosseguir o nosso caminho de problematização e de procura de soluções. A humildade, o bom senso e a determinação deverão aqui imperar. Reflictamos sobre a forma como germinaram os mais nobres feitos da humanidade!
Em jeito de conclusão, tomo emprestada uma reflexão, que considero sublime, de F. Nietzsche, que é bem ilustrativa da questão versada neste texto: “De onde vêm as montanhas mais altas? Perguntava-me eu, um dia. Aprendi que vêm do mar. O testemunho está escrito nas suas rochas e nas paredes dos seus cumes. O mais alto tem que atingir a sua altura a partir das suas profundezas”[2]. Saibamos, pois, aprender a conhecermo-nos.



[1] NIETZCHE, Friedrich (s/d). Assim falava Zaratustra. Colecção Grandes Génios da Literatura Universal. Amadora: Ediclube, p. 39.
[2] Op. cit., p. 137.