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terça-feira, 28 de abril de 2026

Equívocos sobre o “wokismo”


Nos últimos tempos tenho ouvido e lido amiúde algumas prédicas sobre “wokismo”, quantas vezes revelando completa ignorância sobre o conceito. Tomo como exemplo o discurso empoeirado do líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, que se assume, de forma emproada, como líder da luta contra o “wokismo”. Ora, o forcado de bezerros deveria começar, desde logo, por regressar à escola. De forma abusiva, o termo é hoje utilizado como um rótulo para tudo aquilo que se relacione com questões de identidade e género, particularmente por sectores conservadores, onde emana uma iliteracia militante.
O termo “woke” surge como expressão de vigilância e consciência contra a injustiça, radicada na luta pela liberdade e os direitos civis da população negra, que ocorreram na década de 60 do século passado nos EUA. Tem origem na expressão afro-americana “stay woke”, uma deturpação de “awake”, que significa acordar ou despertar. Mas para uma melhor compreensão do que está em causa, impõe-se uma contextualização do termo, o que nos obriga a falar sobre outro conceito, o das “guerras culturais”.
O termo “guerras”, só por si, remete-nos, de imediato, para contendas ou conflitos. Quando falamos em guerras culturais logo somos direccionados para clivagens entre facções, que se traduzem, na maioria das vezes, em confrontos ideológicos, habitualmente entre visões conservadoras e progressistas.
Mais do que um confronto ou um debate sério, fundamentado e intelectualmente honesto, o que assistimos hoje é a uma radicalização, a uma polarização pautada pela demagogia e ignorância, onde palavras como “tolerância”, “pluralismo”, “multiculturalismo” ou “justiça social”, só para dar alguns exemplos, são conceitos abstractos. Atente-se aos muitos debates que vão ocorrendo na Assembleia da República. A erosão progressiva da qualidade das intervenções parlamentares está à vista. É um espectáculo profundamente penoso. Sabemos bem quem tem contribuído orgulhosamente para esta desgraça. As redes sociais têm, como é seu apanágio, contribuído para o crescimento do abismo.
As guerras culturais não são uma ficção ou uma moda. São uma realidade que tem décadas de história, e que acompanha as lutas e reivindicações sociais de várias gerações. Como lembra Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura, as guerras culturais assentam em factos concretos, “envolvem matérias como o papel da família e a moral tradicional, as questões de sexualidade e género, as tensões em torno da etnia e das identidades nacionalistas, os debates sobre liberdade de expressão e os limites do discurso.” Às quais junta as alterações climáticas e a revisitação dos direitos das mulheres na sociedade contemporânea (Público, 7/04/2026).
Diversos movimentos sociais, sejam eles feministas, ambientalistas, estudantis, operários, negros, LGBT, enfim, de defesa dos Direitos Humanos, são frequentemente apelidados de radicais e terroristas, só porque defendem causas nobres, como o direito a um chão, um ambiente sustentável ou a própria vida. Veja-se o que tem acontecido a vários manifestantes que se têm insurgido contra o genocídio em Gaza, que, além de serem cinicamente rotulados de anti-semitas pelo governo terrorista do criminoso Benjamin Netanyahu, acabam presos. Temo-lo visto, por exemplo, no Reino Unido e na Alemanha.
Regressando ao termo “woke”, este acabou por ser esvaziado do seu sentido original, entenda-se, das suas dimensões políticas, e passou a ser, como apontei no início, circunscrito a questões de género, identidade ou de feminismo. Como diz Gabriela Canavilhas, tornou-se “um rótulo reduzido ao que mais inquieta o imaginário androcêntrico e conservador: o sexo." O que, na sua origem, começou por representar a defesa de direitos civis, transformou-se “num termo pejorativo ligado ao género, deturpado pelo uso distorcido e, pior ainda, pela manipulação deliberada do seu significado.” E com este embuste se tenta ocultar ou desviar as atenções do que verdadeiramente inquieta e afecta a vida das pessoas. A ex-ministra lembra que as guerras culturais do século XXI vão muito para além das questões de identidade e género, incidindo sobre os conflitos de brancos contra negros e pessoas racializadas, a desigualdade de poder entre homens e mulheres, o confronto entre capitalismo e ambientalismo, a convivência entre populações locais e imigrantes, a ciência versus negacionismo. Por estas e muitas outras razões, stay awake!

terça-feira, 24 de março de 2026

Prato do dia

Assistir aos noticiários televisivos tonou-se uma tarefa deprimente. Não só pela monocromia temática, mas igualmente pela falta de qualidade de algumas peças jornalísticas.
Qualquer acontecimento com algum impacto mediático é explorado e consumido até à exaustão. Para além dos espectáculos degradantes a que vamos assistindo no nosso parlamento, protagonizados pelos do costume, ainda há pouco eramos inundados (passo a ironia) pelas cheias do Mondego, e antes pela tempestade Kristin, que lamentavelmente trouxeram tragédia e avultados estragos, e num piscar de olhos aqui estamos debruçados sobre a guerra no Médio Oriente.
Um criminoso, condenado, que dirige em contramão a maior potência militar do mundo, decidiu pegar nos seus brinquedos bélicos e jogar à batalha naval, numa região que conhece tão bem como eu conheço Saturno. Bastou deixar-se arregimentar por outro fora da lei, com mandados de captura pelo Tribunal Penal Internacional, que não descansa enquanto não arrasar com todos os países que rodeiam o seu Estado, e cuja guerra lhe é conveniente para se manter longe do julgamento por corrupção em que está envolvido.
Os motivos do ataque ao Irão variam conforme as luas. Já ouvimos de tudo. Certo é que algum do comentariado, ingénua ou cinicamente, continua a acreditar na fábula da mudança de regime, que, é certo, é dos mais aterradores à face da terra. Ou então especulando sobre o programa nuclear iraniano, que julgávamos obliterado, segundo palavras categóricas do referido Yankee. Desses analistas especialistas destacam-se alguns graduados pela academia do Observador, outros acabados de sair da creche. Advogam que os fins justificam os meios, mesmo que se faça ao arrepio desse empecilho chamado Direito Internacional. Bem, se formos por aí, então há muito país candidato a ser bombardeado! Para esses mesmos sofistas, a morte de crianças, assim como a terraplanagem de habitações e infra-estruturas tornam-se apenas notas de rodapé.
Quer o criador do “Conselho para a Paz” (!), quer o seu agenciador judeu, embarcaram numa aventura que ninguém sabe como acabará, nem que consequências a médio e longo prazo irá acarretar. Certo é que o ataque ao Irão resultou num ataque à economia global. A factura já começou a chegar aos nossos bolsos, com a subida brutal dos combustíveis, assim como dos bens de consumo. Inflação, aumento das taxas de juro, empobrecimento, recessão, etc. estão à espreita. Aqui estão os resultados das tropelias do nosso grande aliado!
Boçalidade, ódio, divisionismo, cobardia, tirania, guerra, sofrimento, tragédia, morte, atentado à(s) democracia(s) e liberdades, desestabilização da ordem mundial, entre outros, são o prato do dia dos noticiários. Pensemos na forma como cada um apreende esta tela. Reflictamos sobre as consequências no estado emocional e nas perspectivas dos cidadãos, em particular nos mais jovens e nos mais frágeis.
Felizmente, para além da leitura de um bom livro ou da imprensa escrita (independente e séria), não faltam inúmeros programas televisivos com os quais podemos aprender e a desanuviar deste mundo alucinante, durante os nossos momentos de descanso ou de ócio.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

2026 e mais além

Ainda mal o ano começou e já são tantas as nuvens negras a pairar.
Não me vou alongar em considerações sobre o “Nero” que governa a maior potência económica e militar do planeta, mas apenas lembrar que boa parte dos distúrbios e perigos que se vêm notando se devem muito a esse déspota. Acresce o efeito de contágio sobre outros devotos seguidores e estagiários, assaz doutrinados. E já são muitos. Incluindo por cá. Já não bastavam outros ditadores e autocratas a perturbarem a ordem mundial, como o senhor do Kremlin, e tínhamos de voltar a arcar com esse pirómano, agora mais agressivo e despudorado do que nunca. A incerteza e o medo vieram para ficar. Por quanto tempo, é algo que ninguém certamente se atreverá a conjecturar.
Hoje, em todo o mundo, o número de autocracias é já maior do que o das democracias. É o que nos dá conta o Relatório da Democracia 2025, do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Os dados do estudo mostram que o mundo tinha, ao final de 2024, 88 democracias e 91 autocracias, uma inversão em relação ao ano anterior. O crescimento da extrema-direita, em particular na Europa, e a sua em entrada em executivos de vários países faz perspectivar que as estatísticas irão destacar, ainda mais, os governos autoritários. A História repete-se, diria Hannah Arendt.
Hoje, a geopolítica redefine-se em 3 grandes blocos: EUA, China e Rússia. O neo-imperialismo, associado à cobiça de velhos e novos recursos naturais, está a fazer o seu caminho. A sôfrega busca de lucro e o desalinhamento brutal dos pratos da balança da justiça social e económica tem tido como resultado o crescente fosso entre ricos e pobres, entre afortunados e deserdados, já para não falar nas questões ambientais. Tem dado um poder desmesurado, nalguns casos acima dos próprios Estados, a alguns multimilionários, como o caso de Elon Musk, que não hesitam em minar democracias.
A Europa anda atordoada e ainda não encontrou um fio condutor que agregue todos os países, de modo a afirmar-se como um bloco económico e militarmente coeso e forte, verdadeiramente federado, e assim conquistar o respeito e a relevância que se lhe exige. O contundente e lúcido discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no passado dia 20 em DAVOS, no Fórum Económico Mundial, amplamente elogiado, é um guião sobre o qual os líderes europeus deveriam inspirar-se.
A inquietação, o sentimento de insegurança, o medo e a de falta de perspectivas quanto ao futuro faz sentir-se em diferentes faixas etárias. E desenganem-se aqueles que pensam que os mais jovens estão alheios a estes acontecimentos. Não, não estão. Pais, professores e outros agentes da sociedade constatam-no. Alguns desses comportamentos vão-se revelando em diferentes contextos, seja em ambiente familiar, escolar e em especial nas redes sociais. Neste último, o caso é mesmo preocupante. São inúmeros os estudos que vêm dando conta do agravamento dos problemas cognitivos, psicológicos, emocionais e sociais, não só nos mais jovens, como nos adultos.
A devassa da vida privada, a mentira, a desinformação, o embriagamento das mentes, a agressividade, o insulto e a ameaça tomaram conta do espaço virtual, sendo, nalguns casos, transpostos para o espaço público. Caminhamos para um mundo distópico que parece superar a imaginação de George Orwell.
Agora a Inteligência Artificial. Tal como aconteceu com as redes sociais, quando surgiram, a IA volta a despertar o interesse dos mais entusiastas, que só vêem nela apenas ganhos, descurando uma necessária análise crítica sobre o que de negativo ou perigoso ela poderá aportar, como aliás já se está a verificar. Se a regulação desta nova tecnologia for a mesma que se verifica com as redes sociais, então estamos conversados!
Um estudo levado a cabo por uma equipa do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA) e apresentado publicamente no final de Junho de 2025, concluiu que os grandes modelos de linguagem (mais conhecidos como LLM, da sigla em inglês) podem prejudicar a aprendizagem, sobretudo no caso dos utilizadores mais jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. Mais concretamente, que ChatGPT e os seus primos podem estar a prejudicar a nossa capacidade de pensamento crítico.
Numa recente entrevista à revista do Expresso (Edição 2774, 26/12/2025), um dos mais conceituados neurocientistas do mundo, António Damásio, alerta para o facto de que toda a inteligência artificial, que está a ser criada pela inteligência natural, pela nossa capacidade criativa, poderá um dia ganhar autonomia. Admite a “possibilidade de alguns desses organismos se transformarem em organismos rebeldes e começarem a ter uma certa autonomia. E aí o futuro é perfeitamente aterrador. É previsível que isso possa acontecer. Depois, é imprevisível dizer quais seriam as consequências e qual o modo como seria possível controlar um tal desenvolvimento.” Em que saga cinematográfica de ficção científica já vi isto?!

terça-feira, 25 de novembro de 2025

“Socialista”, palavra maldita

Tem sido interessante e deleitosa a profusão de artigos e comentários televisivos e radiofónicos, que têm proliferado sobre as recentes eleições nos EUA. Refiro-me, em concreto, àqueles que vaticinam um futuro sombrio aos candidatos democratas vencedores, em especial, a Zohran Mamdani, devido às políticas que defendem para os seus territórios. Tais ilustres analistas apostam todas as fichas no seu descalabro. Do lado de cá do Atlântico, numa lufada de ar despoluído, lembro a vitória do democrata Rob Jetten, nas recentes legislativas dos Países Baixos, que apostou num discurso optimista, por oposição ao ódio e rancor do seu principal adversário, Geer Wilders, líder da extrema-direita holandesa.
Ainda antes da sua vitória em Nova Iorque, Mamdani já era rotulado de “comunista” por Donald Trump. O presidente dos EUA, bem ao seu estilo arruaceiro, não poupou nas críticas ao democrata, onde não faltaram as ameaças de cortes de financiamento à cidade que nunca dorme, caso este vencesse. De nada lhe valeu a investida. Acredito mesmo que teve o efeito contrário.
A vitória dos democratas estendeu-se aos estados de New Jersey e da Virgínia, com a eleição para governadoras de Mikie Sherill e Abigail Spanberger, respectivamente. Ambas centraram as suas campanhas no aumento do custo de vida, focando-se no impacto da inflação em áreas como a habitação e a alimentação. Sherill diria mesmo que “A liberdade por si só não é suficiente se o governo tornar impossível alimentar a sua família, obter uma boa educação ou conseguir um bom emprego”. Spanberger, para além do referido elevado custo de vida, denuncia a falta de escolas e hospitais nas vastas regiões rurais da Virgínia, assim como de habitação. Uma posição muito próxima de Mamdani.
Centrando-se no custo de vida, o novo mayor de Nova Iorque, uma cidade cuja renda média ronda os €4000 e uma creche custa metade disso, propôs o congelamento das rendas controladas, creches e autocarros gratuitos, financiado por um mísero aumento de 2% nos impostos dos multimilionários. Mamdani, que se afirma socialista democrata, quer mercearias sob controlo municipal e taxar mais os bairros de população maioritariamente branca do que os restantes, por via do imposto sobre a propriedade. Para vencer, Mamdani não precisou de recorrer à gritaria ou à manipulação nas redes sociais, de que é useiro e vezeiro Trump e seus apaniguados. Apostou, sim, nas medidas revolucionárias atrás descritas. Fê-lo criticando o nacionalismo, a intolerância, a especulação imobiliária, a promiscuidade do governo com os senhores das tecnológicas, sobre os abusos de poder sobre a liberdade e a democracia. Fê-lo com um discurso próximo do do socialismo europeu ou da social-democracia, como preferirem. Boa parte do que propõe existe pela Europa adentro. Só que a defesa do que se aproxime de um Estado social redistributivo é, nos dias que correm, um ultraje.
Hoje, assumir-se “socialista” ou até de “esquerda” equipara-se ao incómodo de dizer-se de “direita” nos tempos imediatos ao 25 de Abril. Nessa altura as pessoas tinham vergonha ou medo de o afirmar, pois tínhamos acabado de sair de uma ditadura de direita, de quase meio século. Hoje temos um líder de um partido de extrema-direita que, de forma desavergonhada, invoca não um, mas três Salazares.
O candidato presidencial António José Seguro, depois de muita pressão dos jornalistas, de hesitação e rodeios, lá acabou por se se afirmar como sendo de uma esquerda “moderada e moderna”. Apressei-me a procurar o seu significado em enciclopédias, mas nada encontrei. Talvez se trate um novo movimento vanguardista que me tem passado despercebido!
Voltando a Mamdani, Daniel Oliveira lembrava que o democrata nova-iorquino “Venceu porque não teve medo de dar esperança, essa arma subversiva contra um desalento que definha a democracia, paralisa o povo e engorda a extrema-direita [e já agora, a direita que a ela se encosta]. Quando a esquerda perceber que é disso, e não da gestão cínica da derrota, que as pessoas têm fome, talvez volte a existir.” (Expresso, 7/11/2025)

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Dos balanços ao elogio aos moderados


Se há partido que se pode vangloriar de uma vitória peremptória nas recentes eleições autárquicas, é o PSD. Todos os outros, com mais ou menos ganhos, não têm motivos para grandes festejos. No entanto, quer na noite das eleições, quer nos dias que se seguiram, não faltaram líderes partidários e comentadores a contabilizarem vitórias, num engenhoso exercício matemático. Há, entretanto, um outro balanço que importa aqui assinalar, e que tem a ver com os posicionamentos políticos à direita e à esquerda.
Tem sido curiosa a forma como o comentariado tem recorrido a alguns epítetos para classificar algumas destacadas figuras da política nacional. Se nalguns casos me parecem acertados, noutros são claramente exagerados e facciosos, com o claro propósito de debilitar ou mesmo aniquilar adversários políticos.
Sobre o posicionamento ideológico do Chega, do seu discurso xenófobo, de incentivo ao ódio, contra a Constituição, contra o regime e por aí adiante, o termo “radical” aplica-se-lhe bem, não por exagero, mas até por defeito. Nenhum outro partido encaixa neste perfil. Estudem os movimentos de extrema-direita ao longo da História, da sua ascensão ao poder e das consequências tenebrosas da sua governação nas sociedades que as viveram. O quadro não é bonito. Mas ainda há quem tenha (outros não) dúvidas e que insista em dourar a pílula. Faz lembrar a fábula do “não é não”.
Têm sido várias as vozes que amiúde têm apelidado de radical, quem simplesmente defende políticas que visam combater a discriminação e as desigualdades sociais, e a melhorar os serviços públicos e o bem-estar dos cidadãos. Entre outros, são exemplos visados o ex-secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos ou a ex-deputada Alexandra Leitão. Esta, tantas vezes designada por uma facção da comunicação social como líder de uma “frente esquerdista”, candidata à Câmara Municipal de Lisboa. Curiosamente, João Ferreira, candidato à mesma câmara pelo PCP, mereceu as maiores loas por parte dos mesmos! Não porque não as merecesse, mas porque foram estrategicamente hipócritas. Como sublinha Ana Fernandes, vocalista dos Capicua, “o neoliberalismo vigente tornou démodés os valores que a esquerda defende (a ideia de bem comum, a importância da igualdade, o dever de solidariedade humana, a universalidade de acesso aos bens e serviços básicos) privilegiando a competição e a não cooperação e pondo a ambição individual […] acima da sobrevivência colectiva (…)”. (JN, 14/10/2025)
Pressionados mais à sua direita e em clara disputa, PSD e CDS têm vindo paulatinamente a incorporar algumas das bandeiras do Chega. Por arrasto, também no PS alguns parecem ter descoberto a fórmula para recuperar ou manter eleitorado. Veja-se o exemplo do autarca de Loures, Ricardo Leão, que não se coibiu de atacar os mais desprotegidos para ter ganhos eleitorais. Aliás, juntamente com José Luís Carneiro ou António José Seguro, ambos têm tido um apoio, mais ou menos disfarçado, do aparelho comunicacional de direita. Estes dois são até designados de “moderados”, entenda-se, dóceis, alinhados com o mainstream. Luís Carneiro compromete-se em tudo fazer para evitar crises políticas, adoptando uma postura de colaboração, amaciando o seu papel e dever de oposição e de escrutínio da governação de Luís Montenegro. Anuncia uma “abstenção exigente” no Orçamento! O que é isso?! Para Pacheco Pereira, este é o resultado de uma vitória táctica da direita, ao fazer o PS interiorizar uma suposta crise dos socialistas. Como diz, “a ideia de que o PS tem perdido por causa de uma sua putativa radicalização e esquerdização entrou no lugar-comum, mas está longe de ser verdadeira.” (Público, 18/10/2025)
O PS tem de olhar, sim, para dentro e ouvir as vozes que querem simplesmente recuperar a sua matriz humanista e progressista, ou se preferirmos, social-democrata, e tornar-se numa oposição responsável, mas firme no combate àqueles que brandem as bandeiras discursivas e programáticas contra a igualdade de género, a diversidade cultural, os curricula escolares, contra uma distribuição equilibrada dos rendimentos, os direitos laborais, que pretendem, enfim, debilitar ainda mais o Estado Social.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

Não é sim

A revisão da lei de estrangeiros levou, sem surpresa, a que o PSD se rendesse à agenda populista e demagógica do Chega, cedendo aos princípios da cartilha da extrema-direita, ancorada na promoção da desconfiança e ódio sobre o outro, sobre o imigrante. Com esta iniciativa, o governo procurou, durante longo tempo, desviar as atenções dos principais problemas do país, em especial na saúde e na habitação. Estes sim, com grande peso nas vidas dos portugueses.
Das várias medidas controversas tomadas, destaco a questão do reagrupamento familiar. Já lá irei. Começo pela falsidade do alegado aumento exponencial de pedidos de nacionalidade, que o governo tem cavalgado e usado para levar a cabo as alterações legislativas pretendidas. Ora o que o Instituto dos Registos e do Notariado revelou recentemente é que a média mensal desceu 12,5% de 2024 para 2025. Sobre a questão da insegurança e criminalidade, outro dos temas de que o governo se apropriou do Chega, a mentira continua a infectar o espaço público. O Relatório do Observatório de Segurança e Defesa 2025, da SEDES, recentemente divulgado, alerta para um desalinhamento persistente entre a criminalidade participada e a percepção pública da insegurança. O estudo revela que entre 2000 e 2024, o número de crimes registados pelas autoridades diminuiu 1,3%, mas as referências a crimes nas primeiras páginas dos principais jornais aumentaram 130%, acrescentando que esta discrepância contribui para a erosão da confiança nas instituições. Mas a generalidade dos cidadãos estará realmente interessada em conhecer a verdade? O que continua a valer são as patranhas das redes sociais, os megafones subversivos e os vídeos do TikTok de Rita Matias, André Ventura e outros piedosos cristãos.
Agora sobre a questão do reagrupamento familiar, ainda há cerca de oito meses Montenegro defendia que se devia “privilegiar uma imigração de famílias inteiras”, e que essa era uma estratégia que permitia uma “integração plena” através do emprego estável e da aprendizagem dos mais novos. Aliás, uma posição semelhante à do ministro da Educação, Fernando Alexandre, uma voz isolada que merece uma palavra de felicitação, por ainda manter a lucidez e um espírito humanista. O que mudou entretanto no pensamento de Montenegro? A avidez (inglória) de conquistar votos ao Chega. Puro tacticismo político.
Como é que querem que se dê uma integração bem-sucedida dos imigrantes no nosso país, quando bloqueiam um pilar essencial da mesma, que é a estabilidade emocional que uma família pode proporcionar a um pai ou mãe que nos procura para trabalhar, para lutar por uma vida digna? À excepção de Lisboa e, em menor grau, Porto ou alguns concelhos do Algarve, onde se concentra maior número de imigrantes, o país tem realmente um problema com a imigração? Veja-se a experiência de Vila Velha de Ródão, como lembrava Daniel Oliveira (Expresso, 11/07/2025), que, com imigração e migração interna, investiu em políticas de acolhimento, contribuindo assim para que o concelho mais envelhecido do país assistisse a um rejuvenescimento demográfico, económico e cultural. Para tal, bastou o município apostar em políticas sociais, como por exemplo, a abertura de escolas e creches. O mesmo poderia dizer do Fundão, outro exemplo de integração bem-sucedida, e que muito tem contribuído para o seu desenvolvimento e no combate à desertificação do interior. Já nem sequer falo nos preciosos contributos fiscais e para a Segurança Social dos imigrantes, bem como para o aumento da natalidade.
Raro é o dia em que não vemos empresários da restauração, hotelaria, construção civil e agricultura a reclamarem a falta de mão-de-obra para estes sectores, que ameaça bloquear a economia. Nada tenho contra a regulação da imigração. Pelo contrário. Mas não podemos ignorar as necessidades do país em matéria de trabalhadores, sejam mais ou menos qualificados. O que não é admissível é a duplicidade de critérios revelada pelo governo: via verde a imigrantes de primeira (vistos gold ou profissionais altamente qualificados) e portas trancadas a imigrantes de segunda (os menos qualificados).
Os entendimentos do governo com o Chega em políticas que atentam contra direitos, liberdades e garantias dos cidadãos, estão a fazer o seu caminho. Afinal o não é sim! Esta deriva levou mesmo uma ex-deputada do PSD, Rubina Berardo, a desfiliar-se do partido, por entender que o mesmo está cada vez mais distanciado da sua matriz social-democrata, fundadora do então PPD. Isso mesmo expressou num artigo publicado no Público (5/07/2025). Não tardaram os ataques e insultos nas redes sociais, incluindo da parte de colegas de partido. Eis o preço de quem não abdica de um pensamento lúcido e independente.

terça-feira, 24 de junho de 2025

Sobre os protestantes

Já lá vai mais de um mês que ocorreram as eleições legislativas. Assim que foram conhecidos os resultados, muita saliva e muita tinta se gastou. Parte do comentariado apressou-se a ditar sentenças e a fazer futurologia, com demagogia à mistura. Entre vencidos e vencedores, a queda da esquerda foi motivo de regozijo à direita, e a subida desta, sobretudo a extrema, causou convulsões na esquerda.
Do muito que se disse, há um ponto que me interessa esmiuçar: o crescimento do Chega e a sua passagem a segundo maior partido na Assembleia da República. Das alusões condenatórias a este acontecimento, há uma com a qual não concordo: a de que os eleitores deste partido são uns ignorantes, no sentido de desconhecedores, da sua identidade e daquilo que ele defende. Para além de sobranceira, acho uma atitude desrespeitosa para quem livremente (obrigado, democracia) vota em quem bem entende e segundo as suas convicções. Acredito mesmo que muitos dos mais de 1,3 milhões que votaram neste partido se revêem nas suas linhas programáticas, bem como no vocabulário e nas práticas dos seus deputados. Tudo bons rapazes.
Para mim está claro que os eleitores do Chega são profundos conhecedores do que é e defende André Ventura e a sua entourage. Sabem perfeitamente que se trata de um partido com uma narrativa racista, xenófoba, anti-imigração e claramente contra a Constituição e os seus principais valores. Sabem que são vários os deputados da sua bancada que estão a braços com a Justiça. Sabem que são promotores de mentiras e insultos no espaço público, no parlamento e nas redes sociais. Sabem que cultivam a agressividade, o ódio, a divisão, a segregação, a misoginia, o patriarcado. Sabem que se apressam a suavizar os actos de violência praticados por grupos organizados de extrema-direita neonazi. Sabem que as suas fake news são escrutinadas pelo polígrafo, onde são categoricamente, e sem surpresas, desmentidas. Sabem que o seu líder recorre frequentemente a golpes de teatro para seduzir e convencer a sua plateia. Sabem disto tudo. Et pourtant
Vários analistas têm dito que se trata de eleitores revoltados, zangados com a governação, o sistema, o regime, e que há necessidade de compreendê-los. É verdade que muitos portugueses estão descontentes, e com razão, com o estado da saúde, com a falta de creches, com a falta de professores, com os baixos salários, com o problema da habitação, dos transportes públicos, da segurança, do ambiente, etc. Mas é bom lembrar que, mesmo assim, 74,44% dos portugueses decidiram não votar no Chega. Por isso, surpreende a centralidade e a cobertura mediática de que tem beneficiado.
Miguel Sousa Tavares tem uma opinião contrária a esses analistas. Diz que os eleitores do Chega estão, sim, zangados com a democracia. Que parte deles são saudosistas do Estado Novo, sendo a outra a que acha que a democracia existe para os servir, e jamais o contrário. Para o jornalista, “O povo do Chega é uma aldeia de invejosos, de gente que não vai à luta por si, preferindo antes reclamar a protecção do estado para a sua inutilidade (como antes faziam com o PCP), e que quer acreditar que se os outros triunfaram nas suas vidas onde eles falharam só pode ter sido por batota e jamais por mérito.” Acrescenta ainda que os mesmos “detestam os que tentam informar-se e aprender, os que não são ignorantes nem parasitas, os que aproveitaram a liberdade para vencer na vida, sem se encostarem a ninguém, esperando sempre ajudas, apoios ou subsídios dos outros, pagos através do estado. Eles detestam quem é livre assim. Numa palavra, a elite.” (Expresso, 30/05/2025)
Para todos os efeitos, já é mais que tempo deixar a retórica e as promessas de parte e partir, sem demora, para o combate efectivo e célere às crescentes desigualdades, garantir serviços públicos de qualidade e desenvolver uma política de proximidade, humanizada. Só assim se combate o populismo, a demagogia e os messias.
Até lá, e quanto ao famigerado voto de protesto, sugiro, em alternativa, o voto em branco. É que assim não correm o risco de virem a arrepender-se de terem votado neste ou naquele partido. De terem beneficiado um ou outro. E assim fica o aviso à navegação, entenda-se, aos governantes, para que fortaleçam a democracia.

terça-feira, 29 de abril de 2025

O fluxo da ignorância

A ignorância é subsidiária de populismos e extremismos. A par da falta de discernimento, é a ignorância sobre a História que tem contribuído para o renascimento da extrema-direita. Esta sempre existiu, apenas esteve temporariamente adormecida – leia-se “O sistema totalitário”, de Hannah Arendt. Agora surge com toda a força, descarada e insidiosa.
Como insistente e comprovadamente tem sido atestado, as redes sociais, através de notícias falsas, têm contribuído para o ataque à democracia, às liberdades (entre elas, a liberdade de imprensa), ao Estado de Direito, à ciência e ao conhecimento. Como notava Pacheco Pereira, “Nada é mais nocivo para a democracia do que os mecanismos dessa ignorância, que vive da falsidade das fake news e das teorias da conspiração, da redução da racionalidade à emotividade primária, e que gera o mundo das ‘percepções’.” (Público, 4/01/2025). Mas algo mais perigoso subsiste nesta nova forma de ignorância, pejada de cinismo e perfídia. Para o historiador, se a “ignorância antiga” provinha do analfabetismo e da escassa escolaridade, a nova ignorância exibe características muito diferentes. E concretiza: “Não se reconhece como ignorância, o que faz toda a diferença, e considera-se um saber, um saber perseguido, feito da “revelação” daquilo que os poderosos, os intelectuais, a elite, o deep state não querem que as pessoas comuns saibam e por isso é anti-intelectual e anticientífica.” (Público, 11/01/2025).
Pouco ou nada se pode esperar das grandes tecnológicas, digo, das redes sociais, como o Facebook, Instagram ou Whatsapp, quando decidem, como o fez Zuckerberg, suspender o programa de verificação de factos, a favor de uma cínica interpretação de “liberdade de expressão”. Assim fica difícil o combate à desinformação e à ignorância, ambas faces da mesma moeda. Ambas se sustentam. Como diz Miguel Sousa Tavares (Expresso, 5/07/2024), “na ignorância prosperou a desinformação, na desonestidade do método banalizou-se a mentira e mesmo a inutilidade de distingui-la da verdade, os factos foram substituídos por “impressões” (…), e quando um iluminado lobo solitário expõe as suas simples e radicais ideias para a salvação da pátria ou do mundo, o atento algoritmo multiplica-a por uns milhares bots, fazendo-a parte de uma multidão fantasma de concordantes. Tudo desaguando num orgulho impensável na ignorância e na boçalidade intelectual, a par de um indisfarçável desprezo, quando não ódio, pelos que insistem em informar-se e pensar pela própria cabeça (…).”
Ocorrida entre os dias 10 e 12 deste mês, em Guimarães, a Education Summit 2025 reuniu uma série de académicos nacionais e internacionais, que reflectiram sobre estado actual da educação no mundo. Uma das oradoras e relatoras, a mexicana Elisa Guerra, alertava para o facto de ser possível ir à escola e não saber ler, ou saber ler, mas não ser capaz de compreender o que se lê. Isto faz soar os alarmes, motivando as maiores preocupações sobre o ensino que vem sendo ministrado em vários países. Por cá, muitos têm sido aqueles, em particular professores e investigadores no domínio das Ciências da Educação, que têm denunciado as disfunções do sistema de ensino. O foco tem incidido na questão da aprendizagem da leitura, a par da dedicação, disciplina e rigor no estudo.
A propósito das comemorações dos 200 anos do nascimento de Camilo de Castelo Branco, António Cortez lamentava o pouco interesse dado à leitura e ao estudo dos clássicos da literatura no ensino. Pois considera que é lendo os clássicos que melhor saberemos o que somos e o que não somos. Como ironicamente destaca, “No país dos génios e das médias inflacionadas a Português, neste país do acordo tácito entre pais e professores para que os meninos transitem todos e nunca tenham traumas, Camilo é um obstáculo que se ultrapassa como todos os outros: com a velocidade típica dos fanáticos do sucesso que jamais saberão o valor do esforço.” (JL, 5-18/03/2025).
Várias políticas erráticas do Ministério da Educação (ME), de vários governos, têm resultado em vários equívocos em matéria de ensino-aprendizagem. Temos um sistema educativo que, como salienta Carlos Granja, “assenta na exacerbação da avaliação como via única da definição da qualidade do ensino e da aprendizagem, sem olhar a meios, nem a princípios.” E quando os resultados não correspondem às famosas “metas”, digo eu, há que encontrar um bode expiatório: os professores. Daí eu estar alinhado com o autor, quando acrescenta que “não cabe só à escola a responsabilidade dos resultados escolares, quando a ela são imputadas todas as responsabilidades e igualmente as culpas quando as falhas e os erros ficam expostos (…).” (JL, 8-21/01/2025). E aqui cabem os famigerados rankings e as costumeiras leituras enviesadas que deles se fazem.
Por muito iluminismo que grasse no espírito de quem comande o ME, “qualquer plano está destinado ao fracasso (…) se continuar a apostar no mesmo modelo de medidas, que confundem a quantidade com a qualidade e a submeter a exigência de rigor na sua implementação à necessidade de apresentar níveis de sucesso para engordar estatísticas. (…) Quando o modelo não é levado a sério, porque o discurso dominante é o do direito ao sucesso, caso contrário a culpa é dos professores, não adiantam medidas de flexibilidade e muito menos de alegada ‘inovação’.” (Paulo Guinote, JL, 8-21/01/2025)
Parece-me evidente que o combate à ignorância, decorrente da desinformação, da manipulação das massas por parte de ‘fariseus’, só fará sentido se começarmos por uma renovação de mentalidades, a começar por aqueles que assumem o governo da Educação, estendendo-se aos que habitam a escola, assim como aos pais e encarregados de educação. A par da arte, a aprendizagem da leitura e a fruição de obras literárias, sejam elas clássicas ou contemporâneas, são condição sine qua non não apenas para elevar o nível de cultura geral do indivíduo, mas também para desenvolver um espírito crítico, imprescindível ao rastreio da avalanche da (des)informação que nos assola diariamente, tornando-nos imunes ao arrebanhamento. Uma tarefa difícil, sem dúvida, mas imperiosa.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

No país das percepções

Já antevejo que uma das fortes candidatas a palavra do ano 2025 venha a ser “percepção”. O termo tem sido utilizado ad nauseam por alguns políticos, entre eles, o primeiro-ministro. E com ganhos. Basta ver os mais recentes resultados das intenções de voto para o perceber, com o PSD a subir no gráfico. Sobre o ponto em análise, antecipo que a campanha para as autárquicas venha a ser pródiga, onde até não faltarão candidatos à esquerda a ensaiar a mesma táctica. Contudo, não é de todo correcto o significado que é atribuído à palavra. Quem se quiser dar ao trabalho de o compreender, que estude. Ao invés de elegerem outros conceitos, tais como, “impressão” ou “sensação”, optaram por um antónimo. Não surpreende. Na verdade, quantos estarão interessados em ler, estudar, instruir-se?
Vem o tema a propósito da tão badalada questão da insegurança, num dos países comprovadamente mais seguros do mundo, que a extrema-direita e a direita serôdia têm cavalgado, e que não têm tido pejo em associá-la injustamente à imigração, fazendo desta um bode expiatório. Para azar dos promotores deste discurso insidioso, as autoridades policiais vieram a público esvaziar este balão de ar fétido, recorrendo à evidência empírica.
Falando em Lisboa na conferência sobre os 160 anos do Diário de Notícias, no dia 17 de Janeiro, o director nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, afirmou, com propriedade, que o sentimento de insegurança tem origem no aumento da desinformação e ameaças híbridas, salientando que os números da criminalidade violenta desmentem essa ideia. Pouco tempo depois era a vez da Direcção Nacional da PSP revelar uma descida considerável, em 2024, quer da criminalidade geral, quer da criminalidade violenta, destacando a área metropolitana de Lisboa. Juntemos ainda a informação precisa apresentada pelo director científico do Observatório das Migrações, Pedro Góis, que não hesita em culpabilizar a cobertura jornalística e o espectáculo mediático que é dado, repetidamente, a alguns discursos políticos enviesados e virulentos de extrema-direita, que levam a uma errada e perigosa falsificação da percepção social (Visão, nº1663, 2025). Mas voltando às autoridades policiais, ambas estatísticas, que não foram urdidas nas redes sociais, irritaram bastante André Ventura e Carlos Moedas. Ao invés de se regozijarem com os números, preferiram mostrar o seu profundo desagrado por estes contrariarem os seus discursos populistas, securitários e demagógicos. De repente o mar ficou sem as ondas sobre as quais prazerosamente vinham surfando. Nada que os impedisse de se apressarem a contradizer os factos, recorrendo aos mais ridículos e cínicos argumentos.
O contributo dos imigrantes para a sustentabilidade da segurança social, que paga reformas e pensões (incluindo de beneficiários que os querem ver repatriados), para o aumento da natalidade, para o preenchimento de postos de trabalhos que muitos portugueses não querem ocupar (agricultura, construção civil, comércio, indústria, serviços domiciliários, etc.), e bem assim para o dinamismo da economia nacional, é eclipsado pelas “percepções” de tudo e mais alguma coisa. Quando esta abordagem é feita pela vox populi, não tem nada de surpreendente. Já quando é feita pela classe política, é, no mínimo, lamentável e perigosa. A propósito, a chamada casa da democracia tem sido palco desse festim. O parlamento transformou-se na Alegoria da Caverna, de que nos narrava Platão. Ainda que este se assemelhe cada vez mais a uma algaravia, muito por culpa de uma deprimente falange de 50, perdão, 49 deputados obsequiosos, formatados por El Generalísimo, será sempre preferível à ilusão de sombras projectadas numa qualquer parede. Não se trata de uma impressão minha. É mesmo uma percepção.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Podridão cerebral

O título deste texto é uma tradução do termo inglês brain rot, escolhido pela Universidade de Oxford como a palavra do ano 2024, sendo definida como uma suposta deterioração do estado mental ou intelectual do sujeito, decorrente do resultado do consumo excessivo de conteúdo considerado banal ou irrefutável, que prolifera especialmente nas redes sociais, mas também nalguns órgãos de comunicação social.
Do que é sabido, a primeira vez em que a expressão brain rot foi utilizada, aconteceu em 1854, pela mão de Henry David Thoreau, no seu livro “Walden; or, life in the woods”. Nessa obra, o escritor norte-americano critica, já à época, a tendência da sociedade para desvalorizar ideias complexas, ou aquelas que podem ter múltiplas interpretações, em favor de ideias simples, vendo isto como um sinal de um declínio geral do esforço mental e intelectual. Volvido mais de século e meio, é surpreendente como esta constatação se mantem actual. Efectivamente, não é preciso um olhar muito avisado sobre o que se passa em nosso redor, para nos darmos conta do que se passa nas nossas sociedades. Atente-se, e no caso português, aos resultados de um recente estudo internacional, que nos coloca no penúltimo lugar de uma lista de 31 países, no que diz respeito à literacia, numeracia e resolução de problemas da população adulta. Refiro-mo ao “Inquérito às Competências dos Adultos de 2023”, publicado no passado dia 10, pela OCDE. Ficou-se a saber que cerca de 40% dos adultos portugueses só conseguem compreender textos muito simples e resolver aritmética básica no dia-a-dia.
A avalanche ininterrupta, sem filtro, de imagens, sons, vídeos, textos e mensagens, na sua maioria de fraca qualidade ou de interesse nulo, acabam por vulgarizar o nosso quotidiano, entorpecer as mentes, tendo o condão de desviar a atenção sobre os temas e as questões verdadeiramente pertinentes. Rui Tavares Guedes dizia, recentemente, no editorial da revista Visão, que esta “podridão cerebral” traduz-se na “deterioração ou até mesmo putrefacção das nossas capacidades racionais, devido ao consumo excessivo de conteúdos online, pouco ou nada estimulantes, mas que nos prendem a atenção, predominantemente nos muitos ecrãs em que vamos saltitando ao longo de cada dia” (nº1657, p.6).
Em diferentes sectores da sociedade, e nas diferentes faixas etárias, esta realidade está bem patente. Começando pela política, ou políticos, aquilo a que assistimos são réplicas de um “trumpismo” que grassa um pouco por toda parte, com o patrocínio das tecnológicas, onde reina, como diz Clara Ferreira Alves, “a absoluta ausência de princípios, civilidade, escrúpulo, vergonha e moral, servida por uma ganância de lucro e vantagens pessoais com e sem nepotismo”. Mais adiante acrescenta que a “democracia plena em que vivemos, onde o insulto e o crime passam por liberdade de expressão, e onde um edifício como a Assembleia da República, o palco central da democracia representativa, pode ser vandalizado e insultado, deixa de ser democracia para passar a ser uma populocracia” (Revista Expresso, 6/12/2024, p.3). Não surpreende, pois, que assistamos a exemplos similares nas camadas mais jovens, em que o respeito pela autoridade, o civismo e as boas maneiras já conheceram melhores dias. Onde a ofensa a pais e professores está banalizado. Onde os impropérios e a agressão física são gratuitos.
Hoje em dia, um professor que se proponha debater com os seus alunos, sobretudo adolescente, alguns temas, tais como: liberdade, democracia, respeito, solidariedade, altruísmo, igualdade de género, direitos humanos, cidadania, património, sustentabilidade, entre tantos outros, defronta-se com uma tarefa custosa, quando não mesmo ingrata. Tudo aquilo que não conste do cardápio das redes sociais é votado ao ostracismo. Não merece “likes”!
Eis aqui matéria que deveria preocupar e ser tida como prioritária pelos pais, na educação dos seus filhos.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Educação sexual: as pedras que persistem no caminho

O tema da educação sexual continua envolto em controvérsias, boa parte das vezes sem qualquer fundamento, fruto da ignorância, de tabus ou de más políticas.
Presente na 16ª conferência da Associação Europeia de Sociologia, subordinada ao tema “Tension, Trust, and Transformation”, decorrida no Porto entre os dias 27 e 30 de Agosto, esteve Pam Aldred, que participou com uma palestra intitulada “What Can We Say About the Sexuality of the Posthuman?”. Para a socióloga, professora e investigadora britânica, cujo trabalho científico se tem centrado nos domínios da educação, dos estudos de género e da sexualidade, apesar de hoje em dia ser mais fácil falar sobre sexualidade e educação sexual, e de toda uma variedade de temas relacionados de enorme relevância, assiste-se, todavia, nos dias que correm, a um retrocesso, fruto de um discurso populista, enviesado, cínico, que começa por colocar em causa direitos humanos. Partidos mais conservadores ou de extrema-direita, assim como alguns fundamentalistas religiosos, não hesitam no uso da demagogia, da desinformação ou de ideias retrógradas para condicionar políticas educativas que visem dar garantias, para todos, de uma educação sexual abrangente e esclarecedora das crianças e jovens, nos diferentes níveis de ensino. Para isso, esses grupos contam frequentemente com a benesse do espaço mediático e das redes sociais, estas sim, um antro de demagogia e reaccionarismo. Veja-se o caso de “dois pesos e duas medidas” que por vezes é utilizado na cobertura televisiva de determinados eventos. Nos jogos de futebol profissional, em particular nas competições internacionais, já assistimos ao corte das imagens televisivas, quando ocorre uma invasão de campo por parte de algum adepto. Já o mesmo não acontece quando um radical fundamentalista interrompe a apresentação pública de um livro infantil educativo. Foi o que já aconteceu, por mais do que uma vez, da parte do ex-juiz Rui Castro (expulso da magistratura), presidente da associação de extrema-direita Habeas Corpus, feito de uma forma violenta, só porque os livros em causa abordavam questões ligadas à educação sexual.
Face a este ambiente social lamacento, a tarefa da educação sexual nas escolas torna-se difícil. Obriga os professores a tratarem com pinças os diferentes temas da saúde em geral, e da saúde sexual em particular, imprescindíveis ao desenvolvimento afectivo, cognitivo, psicológico e social das crianças e jovens. Enfim, de um crescimento saudável e informado. Mais ainda quando do outro lado, da parte dos pais, encontra-se, por vezes, um entrave para se conseguir esse desiderato. Pam Aldred defende que “os pais podem considerar que é seu papel falar de valores e da sua cultura familiar, seja o que for”, acrescentando, no entanto, que “a escola também deve falar dos aspectos técnicos, legais e, provavelmente, dos elementos sexuais mais explícitos da educação sexual, quando chegarmos ao ensino secundário”[1]. A investigadora entende mesmo que não deveria haver qualquer conflito a esse respeito. Infelizmente nem sempre é assim. A título de exemplo, lembro o caso dos irmãos alunos de uma escola de Vila Nova de Famalicão, impedidos pelos progenitores de frequentarem as aulas da disciplinas de Cidadania e Desenvolvimento, só por nelas se abordarem temas como a igualdade de género ou a educação sexual. Hoje em dia, não é qualquer professor que está disposto a arriscar o tratamento deste e de outros assuntos que a educação sexual abarca, com todo o prejuízo que isso acarreta na educação e formação das crianças e jovens, dada a postura de alguns progenitores, muitas vezes marcada pela agressividade, prepotência e desrespeito pela autoridade e competências do professor. Muito ao estilo do que grassa na cloaca das redes sociais.
No âmbito das políticas educativas, e neste caso particular da educação sexual, os governos têm andado em contramão. Veja-se o anúncio de Luís Montenegro no recente congresso do PSD, em que promete uma nova revisão de programas no ensino básico e no secundário (mais uma!), e que irá libertar a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento “das amarras a projectos ideológicos ou de facção”, provavelmente sem se dar conta da marca ideológica desta afirmação! Ao dizê-lo, o Primeiro-Ministro acabou por revelar um profundo desconhecimento acerca do programa da disciplina, cujos assuntos, nela tratados, têm assentamento na Constituição. Ignora igualmente que as linhas orientadoras da disciplina entraram em vigor durante o Governo PSD/CDS, liderado por Passos Coelho, tendo sido publicadas em 2011 e 2015. Por outro lado, não vale tudo para conseguir conquistar os eleitores do Chega, brandindo as mesmas bandeiras. Valeu ao menos a posição sensata do ministro da Educação. Tomando como exemplo a Inglaterra, Pam Aldred salienta que as reformas curriculares são muitas vezes feitas na dependência da opinião dos pais, e quase nunca ouvindo os alunos, aqueles que deveriam ser o verdadeiro centro das atenções. Dito isto, atendendo ao mundo virtual que os jovens frequentam, inundado de desinformação, manipulação, cultura do espelho, pornografia, todo o tipo de violência, etc., a investigadora defende a abordagem destes e de outros temas, sem tabus, de forma a promover uma literacia sobre as imagens visuais que os rodeiam, devendo ser analisadas de forma crítica. Posição que subscrevo na íntegra.

[1] Entrevista ao Jornal de Notícias de 6/10/2024.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Os zangados

Na generalidade, algo que têm em comum os líderes de partidos da extrema-direita ou direita radical, enfim, o que lhe quiserem chamar, é o ar e a postura de zangados. Parece que andam sempre de mal com a vida. Para além de partilharem, grosso modo, o mesmo ideário, destacando-se a luta contra a imigração, contra a identidade de género, a defesa do nacionalismo étnico, a rejeição das elites, etc., o seu discurso é habitualmente marcado pela agressividade, ódio, insultos, ataques de carácter, misoginia, mentira, xenofobia, arrogância, radicalização, divisão da sociedade e por aí adiante.
Comecemos por alguns exemplos no continente europeu, realçando os mais sonoros: o arguido Matteo Salvini, do Liga Norte, Santiago Abascal, o “duce”do Vox, Marine Le Pen, do Rassemblement National, Viktor Orban, primeiro-ministro húngaro e líder do Fidesz, ou então por cá, o Sr. Ventura, mais um irrevogável, uma cópia desbotada aspirante a entrar na liga profissional.
Do lado de lá do Atlântico, para além do agora menos mediatizado Jair Bolsonaro, temos o louco da Argentina, Javier Milei e, claro está, o sumo pontífice, o líder supremo da irmandade, o patológico Donald Trump. Está instalada a insanidade desbragada ou, como diz Pacheco Pereira, em referência ao contributo funesto das redes sociais na decomposição das sociedades, a “Cloaca Maxima”[1].
Para além da histeria, do histrionismo e da demagogia que tais figuras regurgitam, apresentam-se como líderes fortes, messias que irão salvar o mundo, que prometem soluções fáceis para problemas complicados, com toda a fantasia e extravagância que a imaginação lhes concede. Veja-se a história dos imigrantes haitianos que andam a comer cãezinhos e gatinhos dos nativos americanos! Seguem-nos as moscas, que não os largam. Tal é a fragrância que as atrai!
O espaço e a acção dos líderes democráticos têm estado fortemente condicionados pela bolha populista e toda a máquina propagandística que a sustenta. No entanto, alguns vão resistindo, não atiram a toalha ao chão, em prol dos valores da democracia, da liberdade e do Estado de Direito. Mas tal não evita que assistamos a algumas brechas que se vão abrindo neste edifício que urge proteger. Veja-se as consequências que está a ter o discurso securitário da extrema-direita sobre governos democráticos, como aconteceu muito recentemente na Alemanha, precipitado pelas conquistas da AfD nas eleições estaduais.
Voltando aos Estados Unidos, Kamala Haris, em contraponto ao estilo quezilento do seu opositor, tem desenvolvido a sua campanha com base na empatia, sem deixar de ser combativa e de abordar os temas que verdadeiramente importam à sociedade americana, com o foco na defesa da democracia e das liberdades. O mesmo se poderá dizer do seu candidato a vice-presidente, Tim Walz, que segue o mesmo registo.
Do lado oposto, na extrema-esquerda, os exemplos também abundam, mas tomo apenas um caso, porque tem sido o mais mediatizado nos últimos tempos, o de Nicolas Maduro. O presidente da Venezuela, para além de partilhar algumas características dos seus "companheiros” da extrema-direita, tem a agravante de estar no poder, com todas as conhecidas consequências nefastas para o país e para o seu povo.


[1] Cloaca Máxima (em latim: Cloaca Maxima) é um dos mais antigos sistemas de esgoto do mundo, construído na cidade de Roma para drenar os pântanos locais e remover os dejectos de uma das cidades mais populosas do mundo na época, despejando-os no rio Tibre. O nome significa literalmente "Maior Esgoto" e, segundo a tradição, a Cloaca teria sido construída inicialmente por volta de 600 a.C. por ordem do rei Tarquínio Prisco. (Wikipédia)

terça-feira, 23 de abril de 2024

O Abril que está por regressar à Escola

Comemorar os 50 anos do 25 de Abril é, para quem ama a liberdade e a democracia, um momento de regozijo. Ao longo destas cinco décadas muito se conseguiu, muito se conquistou, o país melhorou em vários domínios, em particular na Saúde, na Educação e na Segurança Social. Dirão alguns, é certo, que ainda há muito por fazer. Sem dúvida. A democracia, a sua sustentabilidade e o seu reforço é um processo em permanente construção. O fortalecimento do Estado Social, da economia e a melhoria das condições de vida das pessoas reclamam o envolvimento de todos, desde os poderes públicos até ao mais comum dos cidadãos.
A democracia e a liberdade não são uma garantia absoluta. Assistimos ao retrocesso que se tem registado nalguns países, com a eleição de governantes autocratas, populistas, nacionalistas, que não hesitam em capturar o poder judicial, a imprensa livre e tudo o mais que possa por em causa o seu livre arbítrio. Alguns designam essas formas de governação de “democracias iliberais”, um conceito que, a meu ver, é um contra-senso. Certo é que nestes casos o resultado é notório, com destaque para o cerceamento de direitos e liberdades individuais. É a democracia que, em toda a sua amplitude, fica condicionada, tendo como consequência directa um recuo na qualidade de vida das pessoas.
Em Portugal, malgrado o crescimento da direita radical, tal como assistimos nas recentes eleições legislativas, a democracia ainda vai dando sinais de solidez. Mas nem por isso devemos baixar a guarda. Num sector em particular, a Educação, registamos alguns retrocessos. Porque seria demasiado extenso estar aqui a elencá-los e a desenvolvê-los, fico-me apenas por um deles, desde logo porque é determinante na vida das escolas e nas próprias aprendizagens. Em concreto, refiro-me ao actual modelo de gestão escolar.
O Decreto-Lei nº 75/2008, de 22 de Abril, da autoria de uma ministra da Educação de má memória, Maria de Lurdes Rodrigues, sepultou um modelo de eleição e gestão democrática das escolas que até aí vigorara, dando lugar a um modelo unipessoal e autocrático. Na senda da apologia de um conjunto de conceitos que estão muito em voga, associados ao mundo empresarial e dos negócios, tais como, competitividade, flexibilidade, empreendedorismo, produtividade ou liderança, decisores políticos e seus prosélitos não tardariam em tirar conclusões de que algo do que se aplica a esse universo, poderia perfeitamente ser transposto para o campo da Educação. Não é por um acaso que no preâmbulo do referido diploma podemos encontrar, de forma repetida e incisiva, um dos referidos conceitos: ‘liderança’. “Reforçar as lideranças”, “boas lideranças”, “lideranças fortes”, “lideranças eficazes” são expressões que por lá abundam. Juntemos-lhes, como é lá dito, e em referência ao director escolar, “um rosto (…) dotado de autoridade”. Ditos visionários acreditam que só com um “líder forte”, ladeado por serviçais, se conseguirão resolver todos os males com que a Educação se debate. De forma sarcástica, mas certeira, Virgínio Sá (2023) sintetiza o perfil deste líder da seguinte forma: “Já não precisamos de mudar coisa nenhuma, basta-nos seleccionar os líderes certos, fortes, eficazes, determinados, sábios, espirituais, iluminados, autênticos, e tudo o resto mudará no sentido certo: é fácil, é barato e proporciona uma educação de qualidade para todos. Pelo menos assim o crêem os prosélitos desta nova panaceia.” Logo de seguida acrescenta: “Cabe, contudo, perguntar qual é a concepção de professor que está subjacente a esta perspectiva funcionalista dominante da liderança. Não disporão os professores da motivação, dos conhecimentos e das competências que lhes permitam realizar o seu trabalho sem a influência/acção maternal de um demiurgo? Não serão os professores capazes de avaliar as situações quotidianas com que se confrontam e decidir de forma informada, empenhada e eticamente responsável?”[1]
O actual modelo de gestão trouxe instabilidade às escolas. É todo um ambiente escolar que se tornou instável e conflituante, com consequências nocivas, inclusive para as aprendizagens dos alunos. Veja-se, com este modelo de gestão escolar autocrático, segregador, nalguns casos persecutório, pode a escola constituir-se um espaço privilegiado para aprendizagem da cidadania, da democracia e da liberdade?
E que dizer do modelo de avaliação de desempenho docente vigente, que, como sublinha Paulo Guinote (2023), representa “uma mistificação completa, um processo de tipo kafkiano, cuja condução é deixada, quantas vezes, ao arbítrio de quem não revelou qualquer especial competência para essa função.”?[2] Num outro texto, o autor é igualmente peremptório, quando afirma que “o que tem vindo a acontecer ao nível da administração e gestão dos estabelecimentos de ensino tem sido a progressiva negação dos princípios basilares da Liberdade, da Democracia e da Participação nos processos de tomada de decisão nas escolas (…).”[3]
A comemorarmos o cinquentenário da Revolução dos Cravos, e agora com um novo governo em funções, impõe-se que uma das primeiras medidas a tomar para a Educação passe, sem demoras, por devolver a gestão democrática às escolas, e com ela a própria democracia, sem a qual, e garantidamente, muitos problemas com que elas se debatem irão permanecer, e nalguns casos agravar.


[1] Sá, Vergínio (2023). Líderes, lideranças e outros quejandos. In A Página da Educação, nº222 p.17.
[2] Guinote, Paulo (2023). Uma questão de infelicidade. JL, Ano XLIII, nº1387, p.46.
[3] Guinote, Paulo (2023). A amargura dos 50. JL, Ano XLIII, nº1381, p.40.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O mundo encantado da Iniciativa Liberal e seus "compagnons de route"

A leitura do programa eleitoral da Iniciativa Liberal (IL) para as legislativas de Março, embora sem surpresas, não deixou de me causar calafrios. Estão lá plasmados os fundamentos da cartilha neoliberal. Reduzir, para não dizer extinguir (o Estado Social), privatizar e liberalizar são o mantra e a fórmula mágica que salvará o mundo. Na impossibilidade de acabar com os impostos (o que verdadeiramente desejariam), este partido propõe uma redução fiscal drástica, beneficiando, para não variar, especialmente a banca e os grandes grupos económicos. Sobre os problemas da habitação, a solução apresentada passa, como esperado, por deixar o mercado funcionar, ou seja, pela especulação imobiliária – a principal razão pela escassez de um tecto para uma classe média ou remediada. Entregar, claro está, a educação e a saúde aos privados, distribuindo cheques de forma generosa – cheques-creche, cheques-ensino, cheques-saúde, cheques... Quem os passa? Parcerias Público-Privadas na saúde em força, ou seja, exponenciar os lucros deste profícuo negócio. Propõem fazer depender o valor da remuneração do desempenho do trabalhador. Melhor dizendo, instituir um sistema de competição individualista entre assalariados, em detrimento da cooperação e da solidariedade. Ainda sobre os rendimentos dos trabalhadores, prevalece a fé cega da IL na generosidade das entidades patronais em determinar o valor do salário mínimo e dos aumentos salariais, e a determinação em enfraquecer, ainda mais, as leis laborais, permitindo, entre outras coisas, a flexibilização dos despedimentos e a redução das indeminizações. Sobre segurança social as medidas propostas apelam à(s) poupança(s). Mas de quem? De quem ganha o salário mínimo ou médio?! Sabemos bem quem são os aforradores! Muito mais teria a dizer sobre o referido programa, mas só concluo com o evidente enfraquecimento do Estado Social que resultaria, se as propostas da IL fossem aplicadas, com uma acentuada redução da receita fiscal. Sabemos ao que levam estas políticas predatórias do Estado e dos trabalhadores. Mas nem por isso os neoliberais deixam de prometer o paraíso. Só que a este apenas acede uma percentagem mínima de milionários, que concentram a maioria da riqueza produzida mundialmente.
Num notável artigo publicado no Público (15/01/2024), o economista Ricardo Paes Mamede apresenta, como exemplo, um retracto socioeconómico daquilo que já foi e o que é actualmente a Nova Zelândia. Por se tratar de um longo artigo, retiro a essência do que nele é dito, e que narra o antes e o pós implementação das políticas neoliberais neste país. Pioneiro na instituição do salário mínimo e no alargamento do direito de voto às mulheres, ainda no século XIX, o país viria a desenvolver no século XX um Estado eficiente, revelando-se um dos mais transparentes e menos corrupto do mundo. Os progressos conseguidos fizeram-se não através de um regime pró-mercado, mas sim de um socialismo democrático. As reformas trabalhistas promoveriam uma reforma agrária, distribuindo terras pela população, criaram um serviço nacional de saúde, um sistema público de segurança social e um parque de habitação social. Nas décadas que se seguiram à 2.ª Guerra Mundial, permaneceu o consenso social-democrata, ou seja, os impostos sobre os mais ricos atingiram uma taxa marginal de 66%, a protecção dos sindicatos assegurava uma distribuição razoável dos rendimentos entre capital e trabalho, enquanto o Estado mantinha sob controlo directo importantes sectores da economia. Ao longo de todo este período a Nova Zelândia tornou-se mais rica e muito menos desigual. Contudo, o primeiro abalo na economia neozelandesa surgiria com a adesão britânica à CEE, em 1973, sua principal importadora. Mas foi em meados da década de 80 que se operaria uma reviravolta, com a entrada em força do neoliberalismo e a aplicação da sua já conhecida e testada receita: privatização de empresas públicas, desregulação do mercado de trabalho, concessão dos serviços colectivos a empresas privadas, redução de impostos sobre os mais ricos e redução acentuada da despesa pública. Tudo em prol da exultante livre escolha e da concorrência! Consequências: agravamento das desigualdades sociais; os 1% mais ricos viram aumentar o seu peso na riqueza nacional; a riqueza dos 10% mais ricos passou de 57% para 70% no mesmo período; os escalões de rendimentos mais baixos viram o seu poder de compra diminuir em termos reais; voltaram as bolsas de pobreza, que tinham sido praticamente extintas no país. Estes são os resultados da falácia da liberdade individual, da prosperidade, do livre mercado e do Estado mínimo preconizados pelos neoliberais.
É este o catecismo da Iniciativa Liberal. É o seu genoma. É o capitalismo de mercado a funcionar sem freio e com fulgor. É a apologia de uma sociedade meritocrática, individualista, interesseira, disfuncional, uma sociedade onde predomina a lei do mais forte, o “cada um por si”. É este o ethos dos neoliberais que, como lembra Camilo Darsie, “conduz à produção e à acumulação de recursos e à reprodução de uma lógica de produtividade e de superação de metas, por meio de uma perspectiva individualizante e competitiva” (A Página da Educação, nº222). É o desmoronamento dos princípios basilares do viver em sociedade, do contrato social. É este o perigo que Nuno Ramos de Almeida (DN, 4/02/2024) denuncia, ao afirmar que “A multiplicação das identidades e a tentativa neoliberal de reduzir todos os problemas sociais a questões de biografia individual, tornaram mais difícil a existência de um sentimento colectivo de pertença e de identificação numa comunidade de luta.”
E é este o partido que o PSD (AD) está disposto a acolher no seu regaço! Visto bem, até acho coerente. Com os escassos sociais-democratas do partido remetidos para as franjas, está aberto o caminho para que se reúna a Irmandade Neoliberal, que comunga, in genere, das mesmas políticas governamentais.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Perda de memória ou perda de vergonha

Muitos têm sido os que se dedicam a traçar o perfil psicossociológico do partido Chega. Apesar de opiniões divergentes, que podemos ler e ouvir sobretudo na imprensa, o grosso delas desemboca na convicção de que estamos perante um partido demagógico, boçal e sem escrúpulos. Ora só podemos ver tal exercício de reflexão e comentário, de análise crítica, como algo de muito útil, na medida em que expõe as verdadeiras entranhas desse partido e o perigo que representa para a democracia.
A recente convenção do Chega, decorrida em Viana do Castelo, foi uma magnífica e exemplar montra do que são boa parte dos seus militantes e o que os move. Foi ainda uma mina para os nossos humoristas. Desde o que se assumiu como fascista, passando por aquele que se revia nas ideias de André Ventura, embora as desconhecesse, ou aquele que subiu ao “público” para se dirigir ao “púlpito”, foram vários os intervenientes que, dentro e fora do palco, primaram por performances algo exóticas, capazes de levar à exasperação da turba, mas também de provocar incredulidade nos mais cientes.
A aposta do chega é captar os descontentes e capitalizar o ressentimento de quem se sente esquecido. Para tal, recorre à demagogia, à mentira, à manipulação de números, ao acicatar dos instintos mais primários, enfim, a todo o tipo de truques e artimanhas para iludir os cidadãos mais incautos ou pouco interessados em procurar a verdade, entenda-se, em estar informados. Mas isso dá trabalho, exige leitura, estudo, reflexão, discutir, pensar. Sim, sobretudo pensar. Tarefas a que muitos não se dispõem.
As tácticas utilizadas e os temas eleitos por Ventura e seus apaniguados são típicos da extrema-direita, que já levam mais de um século. Os alvos, que considera “parasitas”, são os de sempre: os estrangeiros, os imigrantes, as minorias étnicas e raciais, aqueles que designa de “subsídio-dependentes”, as elites corrompidas, desde logo os banqueiros. Aí está o homem de faxina, que promete “Limpar Portugal”! Sobre os imigrantes, nunca é demais lembrar o recente relatório do Observatório das Migrações, que dá conta de que em 2022 estes foram responsáveis por um saldo positivo de 1604,2 milhões de euros da Segurança Social. Acrescenta ainda que sem eles alguns sectores da nossa economia paralisariam, já para não falar do seu contributo para o aumento da taxa de natalidade. Mas Ventura está bem ciente de que não está a apontar para os verdadeiros culpados pelo desagrado legítimo de muitos portugueses. E aqui volto aos “descontentes”. Para Fernando Rosas, os problemas dos portugueses, que são comuns aos cidadãos de muitos outros países, resultam do capitalismo neoliberal, responsável por deixar “um rasto de destruição económica e social, com despedimentos, a liberalização do movimento de capitais, a liberalização das relações laborais”, tendo levado à criação de “uma massa de desempregados, de precários, de gente marginalizada, de pequenos proprietários ameaçados, gente que não se sentia representada no sistema político”, sendo aqui onde “a extrema-direita pesca o descontentamento, a raiva, o medo” (DN, 14/01/2024). E aqui entram as promessas inexequíveis, insustentáveis e demagógicas de Ventura, que promete tudo e a todos, sem explicar como, melhor dizendo, fantasiando sobre números, estatísticas, cenários económicos, etc. Puro engodo. E ainda tem, este senhor, o desplante de evocar o nome de Sá Carneiro, que está nos seus antípodas!
Os sucessivos congressos do Chega têm sido marcados por uma retórica e por coreografias que vão sendo pontualmente salpicadas com uma linguagem e símbolos da direita radical histórica. É disto que nos lembra o politólogo António Costa Pinto, que conta com várias obras publicadas sobre ditaduras, fascismo e o Estado Novo. Ventura tem sido pródigo em utilizar lemas do salazarismo, do fascismo italiano e do nazismo. Quem não se lembra do “Deus, Pátria, Família e Trabalho”, este último acrescentado como uma indirecta aos alegados “subsídio-dependentes”? Trata-se, como sublinha Costa Pinto, de uma clara ligação ao Estado Novo (Público, 12/01/2024). Nas presidenciais de 2021, em que Ventura foi candidato, o próprio publicou na rede social Twitter (actual X) uma fotografia sua, que se fazia acompanhar do lema “Um líder, um país, um destino”, uma adaptação de um dos lemas utilizados por Hitler (“Um povo, um império, um líder”). Por mais de uma vez André Ventura levantou em público o seu braço direito em riste, lembrando a saudação romana, que viria a ser adoptada por Hitler.
Este saudosismo não criará espanto a quem está atento e conhece a História do antes e pós-25 de Abril. Como dizia Ana Sá Lopes, “Portugal não acordou de repente com um monte de fascistas, xenófobos e racistas. Sempre cá estiveram.” (Público,14/01/2024). A jornalista responsabiliza PSD e CDS por terem dado refúgio à “direita nostálgica”, acrescentando ainda que as ideias xenófobas sempre existiram na sociedade portuguesa. A título de exemplo, atente-se ao que se pode ler no jornal Observador… Porventura já poucos se lembrarão de um programa da RTP, que foi para o ar em 2006, a que deram o nome de “Os Grandes Portugueses”, e em que os telespectadores eram convidados a votar naquele que consideravam “o maior português de sempre”. O resultado chegaria a 25 de Março de 2007, com a eleição, vejam só, de António de Oliveira Salazar! Confesso que não fiquei muito surpreendido, pois fui ouvindo a miúde e ao longo dos anos, da boca de simpatizantes ou militantes de partidos tidos como democráticos, que fazia falta ao país um Salazar. É caso para dizer que estaremos perante uma perda de memória ou perda de vergonha. Ou então ambas.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

O tempo dos necrófagos e profetas

O conhecimento público de uma investigação do Ministério Público na passada terça-feira, dia 7, a envolver o Primeiro-Ministro, do qual resultaria a apresentação da sua demissão, apanhou muita gente com as calças na mão, incluindo os líderes partidários. Imagino o pasmo de alguns deles, tomados pelo inesperado acontecimento e ainda a digerir as sondagens sobre os índices de popularidade que lhes têm sido pouco abonatórios. A extrema-direita, cheia de rabos-de-palha, regozija-se ao ver uma oportunidade para levantar ainda mais alto uma das suas bandeiras, o combate à corrupção, e surfar a sua onda de demagogia. Imagino a atmosfera radioactiva que estará a contaminar as redes sociais, onde reinará o discurso justiceiro. Certo é que os tiros nos pés já começaram na luta pela pole position, com líderes a precipitarem-se em comunicados e conferências de imprensa. Uns com pose de estadista, já em jeito de campanha, outros de rosto angelical e ufano, mal disfarçando o sorriso rufia, mas ambos a salivar e ensaiando o canto de sereia. Sobram os adultos, os mais avisados e sensatos. Entretanto, o PS terá no curto prazo de escolher o seu próximo líder, que irá disputar as próximas eleições.
As casas de apostas multiplicaram-se de uma forma exponencial, que nem cogumelos. Os julgamentos e as condenações nos média já estão em curso. Os comentadores de serviço, munidos das cartas de Tarot, acotovelam-se para preparar o epílogo deste filme de acção. O enredo já está criado, os personagens já são conhecidos e a banda sonora (ruidosa) já se faz ouvir. Os efeitos especiais estarão a caminho.
Ora reza a história que António Costa demitiu-se, depois de “surpreendido” com uma nota da Procuradoria-Geral da República (PGR), dando-o como alvo de um inquérito-crime no Supremo Tribunal de Justiça (STJ). O caso envolve figuras próximas do Primeiro-Ministro (PM), entre os quais João Galamba, num processo que envolverá corrupção, tráfico de influências e prevaricação.
No momento em que António Costa decidiu segurar Galamba em Maio deste ano, abrindo assim uma crise institucional entre governo e Presidência da República, de pronto a espada de Dâmocles ficou pendida sobre a sua cabeça. Por ironia do destino, a “bomba atómica”, à qual Marcelo aludira em discurso oficial e em entrevistas, acabaria por ser largada pelo Ministério Público. Bastou, para tal, que este convencesse a PGR a elaborar um comunicado, dando conta que o STJ abriu um inquérito ao PM. Ouvidos os partidos e o Conselho de Estado, o Presidente da República (PR) comunicou ao país, no dia 9, a decisão de convocar eleições antecipadas para o dia 10 de Março de 2024. Anunciou ainda que a votação final global do Orçamento do Estado ocorrerá no final deste mês, dia 29, de modo a garantir a aprovação de várias medidas, para assegurar o máximo de “estabilidade económica e social” e não comprometer a execução de metas do PRR. No mesmo comunicado, e numa alusão ao processo judicial que envolve o nome do PM, o PR pediu respeito pela presunção de inocência enquanto durar o processo e recomendou celeridade à Justiça.
Num país onde a vox populi não entende, nem se preocupa em entender o que significa a presunção de inocência, a palavra “suspeito” logo é equiparada à de “culpado”, seguindo-se a incontinência das populares expressões, “são todos iguais!” ou “o querem é mamar!”, dando assim conta da sua elevada cultura cívica, ética e política. Há quem perspective fugas de informação a conta-gotas sobre o processo judicial até ao dia das eleições, o que não tem nada de surpreendente! Este seria o melhor tónico para alimentar a retórica populista. Corre-se o risco de a agenda e o debate político serem infectados com o tema da corrupção, tirando espaço e destaque à discussão dos programas eleitorais de cada partido. Antevê-se uma luta partidária decorrida sobre um ambiente de suspeição, ao qual não escapará o poder judicial. Não é por acaso que vários ilustres democratas, e em consonância com o PR, têm vindo a público alertar para a necessidade do processo que alegadamente visa o PM ser célere e transparente, para que todos os cidadãos sejam esclarecidos, de forma contundente, sobre o que motivou este inquérito, que lançou o país numa crise política. E que tal se faça não tanto pela situação do PM, mas pela defesa da democracia e do Estado de direito. Seria comprometedor os portugueses chegarem ao dia das eleições sem poder aferir devidamente das suspeitas levantadas sobre a governação de um dos maiores partidos da democracia portuguesa. Esperemos que a uma crise política não se soma uma crise na justiça, pois aí estaríamos perante uma crise de regime.

terça-feira, 17 de outubro de 2023

A falta de professores. Sobretudo dos “principais”!

As notícias sobre a falta de professores no ensino básico e secundário, nalgumas disciplinas, têm sido, infelizmente, recorrentes. É um problema sério, com um horizonte que não augura nada de bom. O número de docentes que se têm formado anualmente está muito longe de compensar os que se estão a aposentar. Nem as medidas agora avançadas pelo governo apontam para uma resolução eficaz, num prazo mais ou menos alargado. Diga-se, em abono da verdade, que a carreira de professor não consegue ser atractiva para os candidatos ao ensino superior. O nível de burocratização a que os professores estão sujeitos, a sua desqualificação por parte de governos e da sociedade em geral, as más condições de trabalho verificadas em muitas escolas e uma tabela salarial que não tem em conta as enormes responsabilidades, a carga de trabalho e as despesas que suportam (traduzido por miúdos, salários que não permitem ter uma vida estável, programada e, por isso, livre de freimas), de modo algum poderão seduzir os jovens, que terminam o ensino secundário, a enveredar por um curso de formação de professores. Poucos estarão dispostos a dar o corpo e a alma por uma profissão sujeita a todos os problemas que acabo de elencar, para além de outros, por muito vocacionados que se sintam.Imagino e compreendo o alívio dos pais que vêem os seus filhos com todos os professores presentes. Também há aqueles que, apesar de faltar um ou outro professor da turma, sentem também algum alívio por os seus filhos terem, pelo menos, os professores das “principais” disciplinas. E aqui chego ao que verdadeiramente motivou este texto.
Aqui há relativamente poucos anos, um sábio e esclarecido ex-ministro da Educação, que me escuso a nomear, não utilizava o termo “principais”, mas algo equivalente: “fundamentais”. Referia-se o dito governante às disciplinas de Matemática, Português, Ciências e pouco mais. Aquelas que vulgarmente se designam de “estudo”. Como se houvesse disciplinas em que não se tenha de estudar!
Ora este é um tema que já explorei em vários artigos e que já me fez perder a esperança de que algum dia isto mude, neste pequeno rectângulo banhado pelo Atlântico. Refiro-me, em concreto, à desvalorização das disciplinas de artes ou de ensino/educação artística por parte de sucessivos governos e pela sociedade em geral, ao contrário do que sucede, por exemplo, em países do centro e norte da Europa. O que as últimas décadas dão conta é das sucessivas reformas, melhor dizendo, remendos curriculares que acabam sempre ou quase sempre por penalizar as disciplinas artísticas, tidas, está visto, apenas como um adorno no currículo. Falo das Artes Visuais, da Educação Musical, da Dança ou Teatro. Estas duas últimas existentes em pouquíssimas escolas. Poderia juntar ao grupo, e bem, a Educação Física e a Educação Tecnológica, esta última nas ruas da amargura! E quando não são os governos a cortar-lhes na carga lectiva, reduzindo-as quase à insignificância, são os próprios directores, alguns deles, a fazê-lo de forma obsequiosa. O que dá conta da enorme sageza e mundividência destes gestores escolares para com esta questão, tal como para tantas outras!
É verdade que a falta de professores nestas disciplinas é coisa rara e circunstancial (por enquanto!), mas os meus 30 anos de serviço, passados por várias escolas, mais o que vou lendo e ouvindo, dão conta de que é algo que não tira o sono a muitos pais. O que interessa mesmo são as disciplinas “principais”! Pena é que muita gente não pare sequer um minuto para pensar e, perante o mundo distópico em que vivemos, se questione sobre quais as aprendizagens verdadeiramente prioritárias a considerar na educação dos jovens. Pena é que não se dêem conta de que o que tirou o homem das cavernas e o trouxe até à Inteligência Artificial se deu, em boa parte, graças à imaginação e à criatividade. Como dizia Dulce Maria Cardoso, “o criador encontra o que ainda não existe e apresenta-o ao mundo”. A escritora resume bem esta mentalidade lusa, de subvalorização daquele que tem a capacidade de criar, nestas breves palavras: “O menor respeito, ou desrespeito, que existe em relação à criação artística e aos criadores resulta de se considerar que a sociedade não sobrevive sem engenheiros, médicos, operários, agricultores, mas que seria possível sobreviver sem criadores, mesmo que isso correspondesse a uma sociedade estagnada em termos de progresso e imaginação”(JL, Ano XLIII, nº 1383). E de humanismo, acrescento eu.

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Também sou candidato a presidente

Não à Câmara Municipal de Vila Pouca de Aguiar, mas à Presidência da República.
Se Marques Mendes, com pouco mais de metro e meio de altura, é candidato a candidato, eu, com 1,78m, porque não poderei sê-lo também? Dirão alguns que “um homem não se mede aos palmos”. Certo, mas também é inegável que, em tempo de campanha, e em especial nas arruadas, o facto de não precisar de usar calçado de salto alto dar-me-ia vantagem. Ou acham aceitável que um candidato, para se fazer notar, desfile por entre o povo empoleirado nos ombros de alguém, ou então num andor? Sobre essa desvantagem, que o diga Alberto João Jardim, que durante uma arruada na Madeira, numas eleições regionais, aqui há alguns anos, a dada altura perguntou, respeitosa e polidamente, pelo ex-líder do PSD, que se tinha perdido no meio da multidão, mais ou menos assim: “Onde está o gajo?”. Por outro lado, porque que é que, nesta corrida ao mais alto cargo da nação, o comentador da SIC não poderá ter como concorrente, um comentador do Notícias de Aguiar? Além do mais, embora não sendo eu conselheiro de Estado, nem ter acesso a uma privilegiada variedade de fontes de informação de que o próprio goza (pese embora a sua conhecida verborreia), sou mais certeiro nos prognósticos.
Quanto a Santana Lopes, que anda por aí, de olhos postos no céu a ver o que está escrito nas estrelas, pode ser que nas suas andanças acabe por se perder e termine algures nalguma noite branca. Sobre Rui Rio, uma fonte anónima, próxima do ex-líder do PSD, diz ser “prematuro estar a discutir o tema a 27 meses de distância das eleições presidenciais, porque isto é queimar uma hipótese” (Público, 6/09/2023). Rio parece apostado na prudência, jogando com o tempo, longe de fontes de ignição. A mesma bitola parece seguir Paulo Portas. Algo que também se poderia dizer de Passos Coelho, embora amigos próximos do ex-primeiro-ministro continuem a afirmar que a sua vocação é a governação ou, parafraseando António costa, ser um “fazedor”. Durão Barroso já veio confirmar que não é candidato. Pudera, perder dinheiro e a paz de uma reforma tranquila!? Só se fosse tolo!
Quanto à esquerda, os eventuais candidatos ainda são uma incógnita. Contudo, não representarão uma ameaça à minha candidatura. Desde logo porque poderão ser assediados para cargos bem mais aliciantes do que o de Presidente da República. Estou a pensar, por exemplo, e no caso do PCP, do eventual candidato acabar por ser convidado por Putin, para assumir o cargo de Ministro das Operações Especiais. António Costa, dizem as más-línguas, estará com um olho em Bruxelas. Augusto Santos Silva hesita entre concorrer à Presidência da República ou à sua junta de freguesia. O Bloco de Esquerda parece seguir a mesma prudência de Rui Rio, ou seja, não quererá precipitar-se, com o receio de queimar eventuais candidatos na praça pública.
Do lado dos offsiders a coisa também não se revela muito auspiciosa. Veja-se o caso do almirante Gouveia e Melo, cujo tiro de partida (com algum retardamento) acabou por atingir o próprio pé, com o episódio dos marinheiros que recusaram embarcar no navio Mondego. Ora nenhum (potencial) presidente da república quererá correr o risco de se confrontar com a deserção de assessores, conselheiros ou, pior ainda, da mulher das limpezas! Sobre Ana Gomes, paira a dúvida se ela estará disposta a pousar o taco de basebol, assim que (e se) receber algum chamamento da ala esquerda do PS, ou da esquerda à esquerda deste, para se candidatar. Sendo uma mulher versada, acredito que ela acredita que conseguiria conjugar as duas ocupações: a de comentadora-gladiadora com a de candidata. Mário Centeno é uma carta fora do baralho. Quanto a Guterres… é só fazer as contas.
Por fim, e a respeito da extrema-direita, muito provavelmente iremos suportar de novo com o jogral do costume, o Ventura, seguido pela sua tribo, a fazer do espaço público uma latrina. Do candidato megafone não faltarão as mentiras, demagogia, ilusionismo, gritaria, vitupérios, caça aos ciganos e imigrantes, enfim, o espectáculo grotesco do costume, para assim acicatar e embriagar a plebe.
A única razão que me levaria a desistir das presidenciais de 2026, era se o Tino de Rans voltasse a entrar na corrida. Com o seu hino de campanha, “Pão-pão-pão-pão-pão-pão, com manteiga é tão bom…” eu não teria a mínima hipótese de vir a sentar-me no trono de Belém, e aí clamar: veni, vidi, vici!

segunda-feira, 24 de abril de 2023

O espaço das artes e da cultura na escola

O desenvolvimento e o progresso de uma sociedade ou de um país podem medir-se pela importância que atribui às artes e à cultura, e daí no investimento que nelas faz. A UNESCO e a OCDE são duas organizações, entre outras, que têm apontado para esta realidade insofismável, através dos diferentes relatórios e pareceres que têm produzido ao longo dos tempos. Infelizmente ainda são muitos os países que não priorizam esse desígnio. Nestes casos, o desfecho é claro: sociedades menos educadas, menos humanistas, menos criativas, menos livres.
Para além dos necessários recursos que deverão ser proporcionados pelos governos aos diferentes agentes e instituições culturais, o investimento nas artes e na cultura passa igual e forçosamente pela educação. Dotar as escolas de espaços adequados e dos mais variados equipamentos e recursos materiais, assim como fixar uma carga horária semanal decente às disciplinas de ensino artístico, são condição sine qua non para a sua leccionação eficiente, assim como para levar a cabo projectos de educação para as artes e para a cultura. Quando me refiro a uma “carga horária decente”, faço-o para dar conta da aleatoriedade que a chamada “flexibilização curricular” permite às direcções das escolas fazer em matéria de horários escolares, e que em muitos casos resulta na subtracção de tempos lectivos às disciplinas de ensino artístico (Educação Visual, Educação Musical, teatro, etc.), para cedê-los a outras disciplinas. Aquelas que um douto ex-ministro da Educação, Nuno Crato, apelidou de “fundamentais”! Não surpreende este (pre)conceito e esta visão estreita, pois ela é, ainda hoje, partilhada dentro das escolas por alguns professores, e fora delas por vários pais. Veja-se, a respeito destes últimos, já assisti a manifestações de preocupação, quando não mesmo de indignação, quando são confrontados com o desejo dos seus filhos, terminado o ensino secundário, quererem seguir um curso superior de artes. A vocação ou a realização pessoal dos filhos é secundarizada face à vontade, 
aos desejos ou aos sonhos dos progenitores!
Apesar destas desmesuras, ainda podemos contar com o altruísmo e o empenho de gente que conhece as potencialidades das artes na humanização e progresso das sociedades, seja dentro ou fora das escolas. E aqui chego a um relevante projecto de âmbito nacional, iniciado em 2019, o chamado Plano Nacional das Artes (PNA). A iniciativa partiu de Graça Fonseca (na altura ministra da Cultura) e João Costa (então secretário de Estado e actual ministro da Educação), numa parceria entre os dois ministérios, e pretendia criar uma plataforma com o propósito de fundir cultura e escola. Para tal, seria convidado Paulo Pires do Vale, investigador, filósofo e curador de exposições, para conceber e comissariar esse projecto, tendo o próprio começado por se interrogar: “O que pode a arte? Como se constrói uma comunidade onde a cultura seja transformadora na vida dos cidadãos?” No momento, Paulo Vale manifestou a sua convicção de que “a cultura possa ser um depósito da Humanidade”, e “a arte um veículo que nos transporta na descoberta de lugares que por vezes nem sabemos que temos dentro de nós.” (Expresso - Revista Especial nº4, de 10/03/2023)
O PNA começou com a adesão de 65 agrupamentos e hoje conta já com 403. Tive o privilégio de ter participado nesta iniciativa, há poucos anos, num dos que a ela aderiu, o Agrupamento de Escolas Gomes Monteiro, de Boticas, através daquilo que o mesmo intitulou de Plano de Promoção das Artes, no qual projectei e dinamizei algumas actividades, com destaque para a criação daquilo que apelidei de “Espaço CriARTE”. Na prática, tratou-se de uma transformação que operei na sala de aula de Educação Visual (3º ciclo), convertendo-a num espaço polivalente que, para além da actividade lectiva, funcionou como galeria de exposições, oficina de artes plásticas, espaço para workshops levados a cabo por artistas convidados, e ainda para actividades/apoio a alunos com necessidades específicas. Saliento ainda a minha colaboração, no âmbito da disciplina de Educação Visual, num projecto de parceria entre o agrupamento, a autarquia e a Universidade do Minho, que incidiu no estudo dos castros existentes no concelho. Para estas e outras actividades, foi determinante a sensibilidade, a visão e o apoio da direcção dessa escola, que não poupou esforços para dar todas as condições e recursos para levar a cabo as inúmeras actividades projectadas. Algumas delas tiveram a colaboração da autarquia, da biblioteca municipal, entre outras entidades.
Este é apenas um exemplo, entre muitos outros, do trabalho que se pode desenvolver nas escolas, com impacto na educação e formação dos jovens. Basta, para tal, haver sapiência, sensibilidade, capacidade de visão e vontade da parte de quem tem o poder de decidir e apoiar este tipo de iniciativas, dentro e fora da escola.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Sobre democracia

O facto de hoje em dia ser maior o número de portugueses que chegam ao ensino superior tem levado a anunciar-se que estamos perante aquilo que se diz ser a geração mais preparada de sempre. Isto tem sido repetido incansavelmente pela opinião pública e publicada.
Num artigo publicado no jornal Público, a 5 de Novembro passado, Pacheco Pereira põe em causa esta apreciação. O historiador e comentador político sublinha que tal juízo desvaloriza uma análise que deveria ser mais abrangente e profunda. Entende o mesmo que a actual geração não tem dado sinais de estar preparada para dar resposta à crise da democracia, por se notar “uma crescente degradação dos factores culturais e de mundivisão”, que implica saber como proceder perante a conflitualidade e desestruturação social a que vamos assistindo. Para tal, Pacheco Pereira defende que contrariar este rumo “implica educação, saber, vontade de saber, ler, ouvir e ver com olhos de ver, procurar informação, reconhecer desinformação, falar com voz alta quando é preciso, e ser prudente na fala quando é preciso, reconhecer o valor da privacidade, não ir em ondas mediáticas e da moda (…).” Ora isto representa exactamente o oposto daquilo que revelou o mais recente e lamentável episódio registado em Brasília, protagonizado por uma turba de imbecis e delinquentes, que decidiram atacar o coração do poder político brasileiro. Para além de preocupante, foi confrangedor assistir àquela invasão bárbara, àquele protesto grotesco de milhares de fanáticos.
Há muito que as campainhas soaram. Se por um lado estes casos de insurreição, já verificados noutras latitudes (quem não se lembra do assalto ao Capitólio, em Janeiro de 2021?), merece um profunda reflexão e uma acção pensada e estruturada para tentar atacar o mal pela raiz, por outro não pode haver complacência para acções que ponham em causa o Estado de direito. Como dizia Manuel Carvalho, no editorial do Público de 10 de Janeiro, “A inteligência nem sempre demove os imbecis”, isto a propósito da dificuldade em usar da razão para confrontar estes actos de puro atentado à democracia, algo que, como o próprio diz, “escapa às nossas categorias de entendimento”, e que carece de uma acção mais musculada.
Numa acção preventiva, diga-se nada fácil, o primeiro passo passará por agir sobre a desinformação e as fake news que campeiam nas redes sociais, e mesmo nalguma imprensa escrita, sobretudo a de facção. Torna-se imperativo não dar tréguas a uma estratégia que visa confundir as pessoas, o senso comum, frequentemente concebida por alguns charlatães que pretendem tirar proveitos políticos, partidários ou mesmo económicos, e que põem em casa os pilares do Estado de direito e da própria democracia. A informação, como diz Pacheco Pereira, “é substituída pelo consumo do ‘engraçadismo’, pelo desprezo pela privacidade, pela raiva, pela calúnia, pelo comportamento em matilha, pelo julgamento imediato, pelo desprezo pelo outro (…).”
A democracia defende-se praticando-a todos os dias e em vários contextos. Faz-se acompanhando o desenvolvimento cognitivo, ou seja, desde a infância, através de uma educação para os valores e para a cidadania. Faz-se na escola, em casa e no espaço público por diferentes intervenientes com responsabilidades educativas e sociais.
Defender a democracia passa por INFORMAR, no sentido lato do termo. E informar significa ou implica, como poderemos encontrar em qualquer dicionário ou enciclopédia, esclarecer, avisar, instruir, fundamentar, indagar, documentar-se, entre outros. É disto que se trata.