terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tempos de incertezas que reclamam um despertar de consciências

O ano lectivo acaba de iniciar-se, feito da rotina costumeira. Para os alunos é o reencontro de amigos e o relato das aventuras de férias. Para os professores, para não variar, é o constatar de nova legislação e novos procedimentos, igual a dizer, mais burocracia. Daí a razão de Carlos Cortez referir que hoje exige-se que o professor “seja muito mais do que o zeloso e obediente funcionário ao serviço do sistema, diligente serventuário do que emana da tutela.” Defende, por isso, que ele “combata a perspectiva árida e tecnocrática do ensino e, simultaneamente, combata aquela superficialidade e o fascínio para com as modas tecnológicas que escondem (tais superficialidade e fascínio) a mais vil ignorância quanto ao que deve saber-se leccionar.” (Visão, 2026, p.8, nº1741) Para os pais, sobretudo dos mais pequeninos, é a manifestação da ansiedade e preocupação, quantas vezes injustificável, com uma nova fase.
Na designada “comunidade educativa”, em especial da parte de pais e encarregados de educação (EE), temos assistido ao foco em questões que não são as mais relevantes para a educação e formação das nossas crianças e jovens. Sobre governos/Ministério da Educação prefiro nem falar, dado o habitual e clamoroso desconhecimento da ecologia social escolar e da incapacidade de lerem os sinais do tempo.
Face ao mundo disfuncional a que assistimos e, pior ainda, àquele que se afigura, continua a surpreender-me como há pessoas preocupadas, em matéria educativa, com questões laterais, que nada definem ou determinam um rumo certo para a educação. Ao invés de pôr em causa a idoneidade do professor, a sua legítima autoridade, a escolha das metodologias e critérios de avaliação que considera os mais adequados; ao invés de nortear a educação dos seus educandos para os ilusórios quadros de mérito; ao invés de delegar todas, e mais as que se possam inventar, responsabilidades aos professores e às direcções de escola, salvo as reconhecidas excepções, os pais/EE deveriam, sim, olhar em seu redor e perceber que o mundo não se circunscreve a uma espécie de caixa de comentários, de uma qualquer rede social. Guerras, desinformação, proliferação do discurso do ódio, ascensão de populismos e da extrema-direita, atentados à democracia e a um conjunto de liberdades e direitos fundamentais, os reconhecidos perigos da Inteligência Artificial, as alterações climáticas e os seus impactos ambientais e sociais não podem ser tidos como meras parangonas. São alguns dos problemas que põem em causa a própria existência humana. Logo, parece-me avisado que o foco da educação deverá centrar-se nos valores do humanismo, na defesa dos Direitos Humanos, do meio ambiente e na formação ética e estética do aluno. A par da exigência e da dedicação ao estudo das diferentes matérias disciplinares, tal implica que se priorize, nos diferentes contextos educativos, o desenvolvimento do sentido crítico, da capacidade de análise, reflexão e intervenção na sociedade, fora da bolha virtual.
Dois acontecimentos recentes dão conta, uma vez mais, como os pilares do Estado democrático estão a ser minados, desde há muito. Um deles foi a vitória da extrema-direita alemã no Estado da Saxónia-Anhalt, que de pronto recebeu as congratulações de dois déspotas do outro lado do Atlântico (Trump e Musk). A desinformação e a incultura venceram. O outro tem a ver com os milhares de pessoas que se reuniram, em Belgrado, para assistir ao funeral e homenagear o antigo comandante militar sérvio-bósnio Ratko Mladic, criminoso de guerra condenado pelo Tribunal Penal Internacional, responsável pela morte de milhares de muçulmanos bósnios durante a guerra da Bósnia (1992-1995). Fiquei atónito.
Relativamente ao primeiro caso, tenho ouvido e lido amiúde que na origem do crescimento da extrema-direita está o descontentamento das pessoas com as condições de vida. A este respeito, a escritora luso albanesa Safaa Dib dizia, num recente artigo, o seguinte: “O fascismo alemão traz más memórias históricas, mas, não querendo simplificar demasiado este fenómeno, não podemos ignorar que este tipo de fascismo pode irromper de forma organizada e eficiente por falta de respostas sociais e económicas que permitam à população viver com dignidade numa democracia.” (Visão, 2026, p.81, nº1749) Certo, mas tal posição não indulta, por si só, o dito fenómeno. Sei de pessoas que não têm problemas económicos ou de outra ordem, muito pelo contrário, mas que sentem um fascínio e que votam nesse tipo de líderes vigorosos, histriónicos, com reposta fácil para o difícil ou impossível, enfim, charlatões. Cá pelo burgo, montado a cavalo branco, o nosso mediatizado jogral propõe “Salvar Portugal”!
Porque não o diria melhor, termino com a transcrição de um excerto de uma recente entrevista dada pelo músico e vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, à revista Visão. “Historicamente, a espécie humana prevaleceu por ser gregária. O que nos desenvolveu, até intelectualmente, foi a comunicação entre uns e outros. Somos uma espécie que depende do outro. Um homem não é uma ilha, OK, mas agora comportamo-nos um bocado como um arquipélago de ilhas isoladas. Por isso é que para mim não é nada surpreendente a ascensão da extrema-direita, porque são pessoas que não pensam no bem comum, mas antes no bem de uma elite, digamos assim, à qual querem pertencer. E para isso é necessário bloquear qualquer sentido comunitário, um conceito que hoje em dia está em risco devido à tal filosofia individual do eu primeiro, que até pode ter começado como uma boa intenção, mas acabou por envenenar por completo a Humanidade e a sociedade.”

terça-feira, 18 de agosto de 2026

No passado dia 10 de Agosto subi ao ponto mais alto da Mongólia, mais concretamente, o Pico Khuiten (Pico da Amizade, em mongol) com 4.374 m de Altitude. Dois dias antes escalara outra montanha, o Pico Malchin, com 4.050 m. Ambas fazem parte da designada cordilheira do Altai. No topo das duas montanhas facilmente se avistam os dois países que fazem fronteira com este país da Ásia central, a saber, a China e a Rússia. A preparação para a ascensão destas duas montanhas exigiu um período de aclimatação que durou uma semana. Até aí foi necessário fazer um voo interno da capital Ulaanbaatar (ou Ulan Bator) até Ulgii, a cidade mais a ocidente e mais próxima da referida cordilheira, para aí empreender, ainda no mesmo dia, uma longa e penosa viagem de 7 horas em veículo todo-o-terreno, por estradões de terra bastante sinuosos, até ao Parque Nacional Tavan Bogd, onde está estabelecido o primeiro dos 3 acampamentos nos quais se pernoita.
Para além da exigência física e técnica empreendidas, recordo o ambiente e as inspiradoras paisagens de cortar a respiração. Ainda houve tempo para conhecer um pouco da cultura mongol, em especial dos povos nómadas, muito característicos deste país asiático, que além de criadores de gado (ovelhas, cavalos e iaques), se dedicam ao treino de águias utilizadas para a caça.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

As entorses da “Escola a Tempo Inteiro”

Por ocasião do Dia Mundial da Criança foi dado a conhecer um estudo da Pordata, que colocava Portugal como o país da União Europeia onde as crianças entre os 6 e os 11 anos passam mais tempo na escola (38 horas contra uma média de 31,5).
Não é de espantar se tivermos em conta um diploma legal que entrou em vigor em 2006, o Despacho n.º 12591/2006, lançado sob o slogan “Escola a Tempo Inteiro”, que visava, tal como é expresso na sua introdução, promover projectos de enriquecimento curricular e, sublinhe-se, “adaptar os tempos de permanência das crianças nos estabelecimentos de ensino às necessidades das famílias”. Ora, ao arrepio do que a ciência tem defendido, as crianças continuam sujeitas a um tempo de permanência no espaço escolar que vai muito além do que é recomendável, com prejuízo para a sua saúde mental, para o desenvolvimento de competências sociais e para o seu próprio sucesso escolar. Como bem dizia Paulo Guinote, “A criação de 2006 continua, portanto, pujante, assegurando que os estabelecimentos de ensino estão abertos quase 12 horas por dia, de modo a permitir às “famílias” lá deixarem as suas crianças, de modo a assegurarem horários de trabalho cada vez mais desregulados e disfuncionais para uma vida familiar com um mínimo de tempo comum de qualidade.” Mais adiante alerta para os falsos pressupostos do referido diploma, ao sublinhar que a “Escola a Tempo Inteiro” “é um programa com motivações económicas, em que a parte pedagógica apenas encobre a enorme incapacidade dos decisores políticos para regularem os horários de trabalho e desenvolver políticas de apoio à qualidade de vida das famílias.” (DN, 11/06/2026) E é esta situação a que a proposta de reforma laboral do governo, recentemente chumbada no parlamento, não dava resposta. Muito pelo contrário.
No início deste ano a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) divulgou um estudo, onde denunciava um aumento da violência em contexto escolar nos últimos seis anos (2020-2025), tendo-se verificado maior incidência na faixa etária dos 11 aos 14 anos, e sinais igualmente preocupantes no 1º Ciclo do Ensino Básico. As agressões não se têm registado apenas entre alunos, mas também destes para com professores e funcionários. A principal razão que motiva estes comportamentos tem a ver com a recusa em cumprir regras. Esta realidade é testemunhada por vários professores, funcionários e directores escolares, numa reportagem de Mónica Baltazar para a revista Sábado. A jornalista sublinha que “Há agora uma percepção geral de que as crianças, nomeadamente as mais novas, estão agressivas e sem capacidade de lidar com a frustração e com o “não”.” (Sábado, 9/06/2026) Diria que é mais do que uma percepção. É uma realidade que a minha experiência confirma.
Um dos entrevistados, Pedro Balhau, director do Agrupamento de Escolas da Lousã, aponta como uma das causas do aumento da violência escolar, um défice de acompanhamento parental, inclusive no pré-escolar. Reconhece que muitas famílias chegam a casa cansadas, levando, como sublinha, a que haja uma maior permissividade na relação entre pais e filhos. Num exercício retrospectivo, segundo este director escolar, “Os pais eram muito próximos e preocupados. Quando acontecia um incidente, articulavam com as educadoras. Neste momento elas têm necessidade de os convocar formalmente para poder falar com eles, porque há um desligamento do processo educativo”.
Para além da promoção de um debate, reflexão e de uma campanha pedagógica nacional sobre a forma como tempo livre das famílias é ocupado, há certamente um longo caminho a percorrer, com muito trabalho a fazer a nível de políticas educativas, sociais e laborais.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

O magnetismo do ecrã

Tem sido recorrentemente discutido na comunicação social, no meio académico, assim como em conversas informais, o problema do uso excessivo dos ecrãs, em particular os telemóveis, e das suas consequências na saúde mental, bem como nas relações entre pares, sejam adultos ou jovens. Numa entrevista ao Público (17/05/2026), o fundador e primeiro bastonário da Ordem dos Psicólogos, Telmo Baptista, alertava precisamente para esses problemas, ao mesmo tempo que apontava caminhos para revertê-los ou minimizá-los.
O psicólogo e professor anota uma realidade preocupante no que diz respeito às relações sociais, e que tem a ver com a redução do contacto presente com a outra pessoa, que vem sendo substituído por meios de intermediação, entenda-se, à distância. Chama a atenção para a necessidade desta comunhão, esclarecendo que o contacto com a pessoa que está à nossa frente, regula a nossa forma de estar. Caso contrário, como salienta, “à medida que nos vamos separando disto, vamos ficando atrás dos nossos ecrãs e teclados, áudios, o que for…”.
As interacções virtuais transformaram os relacionamentos, abrindo brechas, a partir do momento em que a comunicação, por ser à distância, por trás de uma cortina, abriu a porta à pulsão de dizer o que quer que seja, sem filtros, resultando muitas vezes em violência verbal. A partir da sua experiência clínica, Telmo Baptista dá exemplos de casais que entram numa espiral de agressividade através das redes sociais, onde trocam acusações e impropérios, transformando-se numa roda livre que se alimenta a si própria. Uma espécie de pescadinha de rabo na boca. Não espanta, pois, que se fale em ansiedade, depressão, stress, burnout e outro tipo de perturbações que afectam a saúde mental, e tudo o que isto acarreta nas relações sociais, familiares, laborais, etc.
Os diferentes tipos de relações, sejam elas amorosas, sejam entre pais e filhos ou entre amigos, ficam comprometidas a partir do momento em que as pessoas perdem a capacidade de conversar umas com as outras, de procurar consensos e soluções partilhadas. As interacções humanas revestem-se de uma importância vital como qualquer outra da qual a espécie depende para a sua sobrevivência e equilíbrio emocional.
É comum vermos em diferentes espaços e contextos as pessoas completamente absorvidas pelo smartphone, a dedilhar e a arrastar imagens e textos num acto contínuo e completamente alienado. De repente tudo à volta transforma-se num cenário incolor, difuso e inaudível. Ao subvalorizarmos o diálogo e a partilha de experiências, vivências, conhecimentos e reflexões, ainda que por vezes opostas, estamos não apenas a empobrecermo-nos intelectual e culturalmente, como criamos um fosso nas relações interpessoais que, como atrás referia, são um substrato de que a nossa existência necessita. É praticamente consensual que na génese de muitos problemas comportamentais e relacionais de que damos conta, está a influência do mundo virtual polvilhado de falsidades, de influencers de pacotilha, das mais variadas formas de demagogia e desumanização que tomou conta do nosso cotidiano e que consomem a atenção dos mais novos aos mais velhos, cujo foco está completamente magnetizado por um qualquer ecrã. As redes sociais transformaram-se num espaço de comentário viscoso, pérfido, insidioso e rancoroso, onde se normaliza e glosa o infortúnio ou o sofrimento dos outros, através de memes, likes e dedicatórias de onde emana a imbecilidade suprema e jubilosa. Onde, por exemplo, activistas no exercício de acções humanitárias, como recentemente aconteceu com a flotilha Global Sumud, com destino a Gaza, são alvo dos piores qualificativos e adjectivações, cujas humilhações a que foram sujeitos pelas tropas israelitas parecem ter sido um mero percalço ou, pior ainda, um castigo merecido. E assim vai a cultura popular e populista instalada no conforto do sofá.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Equívocos sobre o “wokismo”


Nos últimos tempos tenho ouvido e lido amiúde algumas prédicas sobre “wokismo”, quantas vezes revelando completa ignorância sobre o conceito. Tomo como exemplo o discurso empoeirado do líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, que se assume, de forma emproada, como líder da luta contra o “wokismo”. Ora, o forcado de bezerros deveria começar, desde logo, por regressar à escola. De forma abusiva, o termo é hoje utilizado como um rótulo para tudo aquilo que se relacione com questões de identidade e género, particularmente por sectores conservadores, onde emana uma iliteracia militante.
O termo “woke” surge como expressão de vigilância e consciência contra a injustiça, radicada na luta pela liberdade e os direitos civis da população negra, que ocorreram na década de 60 do século passado nos EUA. Tem origem na expressão afro-americana “stay woke”, uma deturpação de “awake”, que significa acordar ou despertar. Mas para uma melhor compreensão do que está em causa, impõe-se uma contextualização do termo, o que nos obriga a falar sobre outro conceito, o das “guerras culturais”.
O termo “guerras”, só por si, remete-nos, de imediato, para contendas ou conflitos. Quando falamos em guerras culturais logo somos direccionados para clivagens entre facções, que se traduzem, na maioria das vezes, em confrontos ideológicos, habitualmente entre visões conservadoras e progressistas.
Mais do que um confronto ou um debate sério, fundamentado e intelectualmente honesto, o que assistimos hoje é a uma radicalização, a uma polarização pautada pela demagogia e ignorância, onde palavras como “tolerância”, “pluralismo”, “multiculturalismo” ou “justiça social”, só para dar alguns exemplos, são conceitos abstractos. Atente-se aos muitos debates que vão ocorrendo na Assembleia da República. A erosão progressiva da qualidade das intervenções parlamentares está à vista. É um espectáculo profundamente penoso. Sabemos bem quem tem contribuído orgulhosamente para esta desgraça. As redes sociais têm, como é seu apanágio, contribuído para o crescimento do abismo.
As guerras culturais não são uma ficção ou uma moda. São uma realidade que tem décadas de história, e que acompanha as lutas e reivindicações sociais de várias gerações. Como lembra Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura, as guerras culturais assentam em factos concretos, “envolvem matérias como o papel da família e a moral tradicional, as questões de sexualidade e género, as tensões em torno da etnia e das identidades nacionalistas, os debates sobre liberdade de expressão e os limites do discurso.” Às quais junta as alterações climáticas e a revisitação dos direitos das mulheres na sociedade contemporânea (Público, 7/04/2026).
Diversos movimentos sociais, sejam eles feministas, ambientalistas, estudantis, operários, negros, LGBT, enfim, de defesa dos Direitos Humanos, são frequentemente apelidados de radicais e terroristas, só porque defendem causas nobres, como o direito a um chão, um ambiente sustentável ou a própria vida. Veja-se o que tem acontecido a vários manifestantes que se têm insurgido contra o genocídio em Gaza, que, além de serem cinicamente rotulados de anti-semitas pelo governo terrorista do criminoso Benjamin Netanyahu, acabam presos. Temo-lo visto, por exemplo, no Reino Unido e na Alemanha.
Regressando ao termo “woke”, este acabou por ser esvaziado do seu sentido original, entenda-se, das suas dimensões políticas, e passou a ser, como apontei no início, circunscrito a questões de género, identidade ou de feminismo. Como diz Gabriela Canavilhas, tornou-se “um rótulo reduzido ao que mais inquieta o imaginário androcêntrico e conservador: o sexo." O que, na sua origem, começou por representar a defesa de direitos civis, transformou-se “num termo pejorativo ligado ao género, deturpado pelo uso distorcido e, pior ainda, pela manipulação deliberada do seu significado.” E com este embuste se tenta ocultar ou desviar as atenções do que verdadeiramente inquieta e afecta a vida das pessoas. A ex-ministra lembra que as guerras culturais do século XXI vão muito para além das questões de identidade e género, incidindo sobre os conflitos de brancos contra negros e pessoas racializadas, a desigualdade de poder entre homens e mulheres, o confronto entre capitalismo e ambientalismo, a convivência entre populações locais e imigrantes, a ciência versus negacionismo. Por estas e muitas outras razões, stay awake!

terça-feira, 24 de março de 2026

Prato do dia

Assistir aos noticiários televisivos tonou-se uma tarefa deprimente. Não só pela monocromia temática, mas igualmente pela falta de qualidade de algumas peças jornalísticas.
Qualquer acontecimento com algum impacto mediático é explorado e consumido até à exaustão. Para além dos espectáculos degradantes a que vamos assistindo no nosso parlamento, protagonizados pelos do costume, ainda há pouco eramos inundados (passo a ironia) pelas cheias do Mondego, e antes pela tempestade Kristin, que lamentavelmente trouxeram tragédia e avultados estragos, e num piscar de olhos aqui estamos debruçados sobre a guerra no Médio Oriente.
Um criminoso, condenado, que dirige em contramão a maior potência militar do mundo, decidiu pegar nos seus brinquedos bélicos e jogar à batalha naval, numa região que conhece tão bem como eu conheço Saturno. Bastou deixar-se arregimentar por outro fora da lei, com mandados de captura pelo Tribunal Penal Internacional, que não descansa enquanto não arrasar com todos os países que rodeiam o seu Estado, e cuja guerra lhe é conveniente para se manter longe do julgamento por corrupção em que está envolvido.
Os motivos do ataque ao Irão variam conforme as luas. Já ouvimos de tudo. Certo é que algum do comentariado, ingénua ou cinicamente, continua a acreditar na fábula da mudança de regime, que, é certo, é dos mais aterradores à face da terra. Ou então especulando sobre o programa nuclear iraniano, que julgávamos obliterado, segundo palavras categóricas do referido Yankee. Desses analistas especialistas destacam-se alguns graduados pela academia do Observador, outros acabados de sair da creche. Advogam que os fins justificam os meios, mesmo que se faça ao arrepio desse empecilho chamado Direito Internacional. Bem, se formos por aí, então há muito país candidato a ser bombardeado! Para esses mesmos sofistas, a morte de crianças, assim como a terraplanagem de habitações e infra-estruturas tornam-se apenas notas de rodapé.
Quer o criador do “Conselho para a Paz” (!), quer o seu agenciador judeu, embarcaram numa aventura que ninguém sabe como acabará, nem que consequências a médio e longo prazo irá acarretar. Certo é que o ataque ao Irão resultou num ataque à economia global. A factura já começou a chegar aos nossos bolsos, com a subida brutal dos combustíveis, assim como dos bens de consumo. Inflação, aumento das taxas de juro, empobrecimento, recessão, etc. estão à espreita. Aqui estão os resultados das tropelias do nosso grande aliado!
Boçalidade, ódio, divisionismo, cobardia, tirania, guerra, sofrimento, tragédia, morte, atentado à(s) democracia(s) e liberdades, desestabilização da ordem mundial, entre outros, são o prato do dia dos noticiários. Pensemos na forma como cada um apreende esta tela. Reflictamos sobre as consequências no estado emocional e nas perspectivas dos cidadãos, em particular nos mais jovens e nos mais frágeis.
Felizmente, para além da leitura de um bom livro ou da imprensa escrita (independente e séria), não faltam inúmeros programas televisivos com os quais podemos aprender e a desanuviar deste mundo alucinante, durante os nossos momentos de descanso ou de ócio.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

2026 e mais além

Ainda mal o ano começou e já são tantas as nuvens negras a pairar.
Não me vou alongar em considerações sobre o “Nero” que governa a maior potência económica e militar do planeta, mas apenas lembrar que boa parte dos distúrbios e perigos que se vêm notando se devem muito a esse déspota. Acresce o efeito de contágio sobre outros devotos seguidores e estagiários, assaz doutrinados. E já são muitos. Incluindo por cá. Já não bastavam outros ditadores e autocratas a perturbarem a ordem mundial, como o senhor do Kremlin, e tínhamos de voltar a arcar com esse pirómano, agora mais agressivo e despudorado do que nunca. A incerteza e o medo vieram para ficar. Por quanto tempo, é algo que ninguém certamente se atreverá a conjecturar.
Hoje, em todo o mundo, o número de autocracias é já maior do que o das democracias. É o que nos dá conta o Relatório da Democracia 2025, do Instituto V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, na Suécia. Os dados do estudo mostram que o mundo tinha, ao final de 2024, 88 democracias e 91 autocracias, uma inversão em relação ao ano anterior. O crescimento da extrema-direita, em particular na Europa, e a sua em entrada em executivos de vários países faz perspectivar que as estatísticas irão destacar, ainda mais, os governos autoritários. A História repete-se, diria Hannah Arendt.
Hoje, a geopolítica redefine-se em 3 grandes blocos: EUA, China e Rússia. O neo-imperialismo, associado à cobiça de velhos e novos recursos naturais, está a fazer o seu caminho. A sôfrega busca de lucro e o desalinhamento brutal dos pratos da balança da justiça social e económica tem tido como resultado o crescente fosso entre ricos e pobres, entre afortunados e deserdados, já para não falar nas questões ambientais. Tem dado um poder desmesurado, nalguns casos acima dos próprios Estados, a alguns multimilionários, como o caso de Elon Musk, que não hesitam em minar democracias.
A Europa anda atordoada e ainda não encontrou um fio condutor que agregue todos os países, de modo a afirmar-se como um bloco económico e militarmente coeso e forte, verdadeiramente federado, e assim conquistar o respeito e a relevância que se lhe exige. O contundente e lúcido discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, no passado dia 20 em DAVOS, no Fórum Económico Mundial, amplamente elogiado, é um guião sobre o qual os líderes europeus deveriam inspirar-se.
A inquietação, o sentimento de insegurança, o medo e a de falta de perspectivas quanto ao futuro faz sentir-se em diferentes faixas etárias. E desenganem-se aqueles que pensam que os mais jovens estão alheios a estes acontecimentos. Não, não estão. Pais, professores e outros agentes da sociedade constatam-no. Alguns desses comportamentos vão-se revelando em diferentes contextos, seja em ambiente familiar, escolar e em especial nas redes sociais. Neste último, o caso é mesmo preocupante. São inúmeros os estudos que vêm dando conta do agravamento dos problemas cognitivos, psicológicos, emocionais e sociais, não só nos mais jovens, como nos adultos.
A devassa da vida privada, a mentira, a desinformação, o embriagamento das mentes, a agressividade, o insulto e a ameaça tomaram conta do espaço virtual, sendo, nalguns casos, transpostos para o espaço público. Caminhamos para um mundo distópico que parece superar a imaginação de George Orwell.
Agora a Inteligência Artificial. Tal como aconteceu com as redes sociais, quando surgiram, a IA volta a despertar o interesse dos mais entusiastas, que só vêem nela apenas ganhos, descurando uma necessária análise crítica sobre o que de negativo ou perigoso ela poderá aportar, como aliás já se está a verificar. Se a regulação desta nova tecnologia for a mesma que se verifica com as redes sociais, então estamos conversados!
Um estudo levado a cabo por uma equipa do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos EUA) e apresentado publicamente no final de Junho de 2025, concluiu que os grandes modelos de linguagem (mais conhecidos como LLM, da sigla em inglês) podem prejudicar a aprendizagem, sobretudo no caso dos utilizadores mais jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento. Mais concretamente, que ChatGPT e os seus primos podem estar a prejudicar a nossa capacidade de pensamento crítico.
Numa recente entrevista à revista do Expresso (Edição 2774, 26/12/2025), um dos mais conceituados neurocientistas do mundo, António Damásio, alerta para o facto de que toda a inteligência artificial, que está a ser criada pela inteligência natural, pela nossa capacidade criativa, poderá um dia ganhar autonomia. Admite a “possibilidade de alguns desses organismos se transformarem em organismos rebeldes e começarem a ter uma certa autonomia. E aí o futuro é perfeitamente aterrador. É previsível que isso possa acontecer. Depois, é imprevisível dizer quais seriam as consequências e qual o modo como seria possível controlar um tal desenvolvimento.” Em que saga cinematográfica de ficção científica já vi isto?!