Nos últimos tempos tenho ouvido e lido amiúde algumas prédicas sobre “wokismo”, quantas vezes revelando completa ignorância sobre o conceito. Tomo como exemplo o discurso empoeirado do líder parlamentar do CDS, Paulo Núncio, que se assume, de forma emproada, como líder da luta contra o “wokismo”. Ora, o forcado de bezerros deveria começar, desde logo, por regressar à escola. De forma abusiva, o termo é hoje utilizado como um rótulo para tudo aquilo que se relacione com questões de identidade e género, particularmente por sectores conservadores, onde emana uma iliteracia militante.
O termo “woke” surge como expressão de vigilância e consciência contra a injustiça, radicada na luta pela liberdade e os direitos civis da população negra, que ocorreram na década de 60 do século passado nos EUA. Tem origem na expressão afro-americana “stay woke”, uma deturpação de “awake”, que significa acordar ou despertar. Mas para uma melhor compreensão do que está em causa, impõe-se uma contextualização do termo, o que nos obriga a falar sobre outro conceito, o das “guerras culturais”.
O termo “guerras”, só por si, remete-nos, de imediato, para contendas ou conflitos. Quando falamos em guerras culturais logo somos direccionados para clivagens entre facções, que se traduzem, na maioria das vezes, em confrontos ideológicos, habitualmente entre visões conservadoras e progressistas.
Mais do que um confronto ou um debate sério, fundamentado e intelectualmente honesto, o que assistimos hoje é a uma radicalização, a uma polarização pautada pela demagogia e ignorância, onde palavras como “tolerância”, “pluralismo”, “multiculturalismo” ou “justiça social”, só para dar alguns exemplos, são conceitos abstractos. Atente-se aos muitos debates que vão ocorrendo na Assembleia da República. A erosão progressiva da qualidade das intervenções parlamentares está à vista. É um espectáculo profundamente penoso. Sabemos bem quem tem contribuído orgulhosamente para esta desgraça. As redes sociais têm, como é seu apanágio, contribuído para o crescimento do abismo.
As guerras culturais não são uma ficção ou uma moda. São uma realidade que tem décadas de história, e que acompanha as lutas e reivindicações sociais de várias gerações. Como lembra Gabriela Canavilhas, ex-ministra da Cultura, as guerras culturais assentam em factos concretos, “envolvem matérias como o papel da família e a moral tradicional, as questões de sexualidade e género, as tensões em torno da etnia e das identidades nacionalistas, os debates sobre liberdade de expressão e os limites do discurso.” Às quais junta as alterações climáticas e a revisitação dos direitos das mulheres na sociedade contemporânea (Público, 7/04/2026).
Diversos movimentos sociais, sejam eles feministas, ambientalistas, estudantis, operários, negros, LGBT, enfim, de defesa dos Direitos Humanos, são frequentemente apelidados de radicais e terroristas, só porque defendem causas nobres, como o direito a um chão, um ambiente sustentável ou a própria vida. Veja-se o que tem acontecido a vários manifestantes que se têm insurgido contra o genocídio em Gaza, que, além de serem cinicamente rotulados de anti-semitas pelo governo terrorista do criminoso Benjamin Netanyahu, acabam presos. Temo-lo visto, por exemplo, no Reino Unido e na Alemanha.
Regressando ao termo “woke”, este acabou por ser esvaziado do seu sentido original, entenda-se, das suas dimensões políticas, e passou a ser, como apontei no início, circunscrito a questões de género, identidade ou de feminismo. Como diz Gabriela Canavilhas, tornou-se “um rótulo reduzido ao que mais inquieta o imaginário androcêntrico e conservador: o sexo." O que, na sua origem, começou por representar a defesa de direitos civis, transformou-se “num termo pejorativo ligado ao género, deturpado pelo uso distorcido e, pior ainda, pela manipulação deliberada do seu significado.” E com este embuste se tenta ocultar ou desviar as atenções do que verdadeiramente inquieta e afecta a vida das pessoas. A ex-ministra lembra que as guerras culturais do século XXI vão muito para além das questões de identidade e género, incidindo sobre os conflitos de brancos contra negros e pessoas racializadas, a desigualdade de poder entre homens e mulheres, o confronto entre capitalismo e ambientalismo, a convivência entre populações locais e imigrantes, a ciência versus negacionismo. Por estas e muitas outras razões, stay awake!
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