Tem sido recorrentemente discutido na comunicação social, no meio académico, assim como em conversas informais, o problema do uso excessivo dos ecrãs, em particular os telemóveis, e das suas consequências na saúde mental, bem como nas relações entre pares, sejam adultos ou jovens. Numa entrevista ao Público (17/05/2026), o fundador e primeiro bastonário da Ordem dos Psicólogos, Telmo Baptista, alertava precisamente para esses problemas, ao mesmo tempo que apontava caminhos para revertê-los ou minimizá-los.
O psicólogo e professor anota uma realidade preocupante no que diz respeito às relações sociais, e que tem a ver com a redução do contacto presente com a outra pessoa, que vem sendo substituído por meios de intermediação, entenda-se, à distância. Chama a atenção para a necessidade desta comunhão, esclarecendo que o contacto com a pessoa que está à nossa frente, regula a nossa forma de estar. Caso contrário, como salienta, “à medida que nos vamos separando disto, vamos ficando atrás dos nossos ecrãs e teclados, áudios, o que for…”.
As interacções virtuais transformaram os relacionamentos, abrindo brechas, a partir do momento em que a comunicação, por ser à distância, por trás de uma cortina, abriu a porta à pulsão de dizer o que quer que seja, sem filtros, resultando muitas vezes em violência verbal. A partir da sua experiência clínica, Telmo Baptista dá exemplos de casais que entram numa espiral de agressividade através das redes sociais, onde trocam acusações e impropérios, transformando-se numa roda livre que se alimenta a si própria. Uma espécie de pescadinha de rabo na boca. Não espanta, pois, que se fale em ansiedade, depressão, stress, burnout e outro tipo de perturbações que afectam a saúde mental, e tudo o que isto acarreta nas relações sociais, familiares, laborais, etc.
Os diferentes tipos de relações, sejam elas amorosas, sejam entre pais e filhos ou entre amigos, ficam comprometidas a partir do momento em que as pessoas perdem a capacidade de conversar umas com as outras, de procurar consensos e soluções partilhadas. As interacções humanas revestem-se de uma importância vital como qualquer outra da qual a espécie depende para a sua sobrevivência e equilíbrio emocional.
É comum vermos em diferentes espaços e contextos as pessoas completamente absorvidas pelo smartphone, a dedilhar e a arrastar imagens e textos num acto contínuo e completamente alienado. De repente tudo à volta transforma-se num cenário incolor, difuso e inaudível. Ao subvalorizarmos o diálogo e a partilha de experiências, vivências, conhecimentos e reflexões, ainda que por vezes opostas, estamos não apenas a empobrecermo-nos intelectual e culturalmente, como criamos um fosso nas relações interpessoais que, como atrás referia, são um substrato de que a nossa existência necessita. É praticamente consensual que na génese de muitos problemas comportamentais e relacionais de que damos conta, está a influência do mundo virtual polvilhado de falsidades, de influencers de pacotilha, das mais variadas formas de demagogia e desumanização que tomou conta do nosso cotidiano e que consomem a atenção dos mais novos aos mais velhos, cujo foco está completamente magnetizado por um qualquer ecrã. As redes sociais transformaram-se num espaço de comentário viscoso, pérfido, insidioso e rancoroso, onde se normaliza e glosa o infortúnio ou o sofrimento dos outros, através de memes, likes e dedicatórias de onde emana a imbecilidade suprema e jubilosa. Onde, por exemplo, activistas no exercício de acções humanitárias, como recentemente aconteceu com a flotilha Global Sumud, com destino a Gaza, são alvo dos piores qualificativos e adjectivações, cujas humilhações a que foram sujeitos pelas tropas israelitas parecem ter sido um mero percalço ou, pior ainda, um castigo merecido. E assim vai a cultura popular e populista instalada no conforto do sofá.
Sem comentários:
Enviar um comentário