terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tempos de incertezas que reclamam um despertar de consciências

O ano lectivo acaba de iniciar-se, feito da rotina costumeira. Para os alunos é o reencontro de amigos e o relato das aventuras de férias. Para os professores, para não variar, é o constatar de nova legislação e novos procedimentos, igual a dizer, mais burocracia. Daí a razão de Carlos Cortez referir que hoje exige-se que o professor “seja muito mais do que o zeloso e obediente funcionário ao serviço do sistema, diligente serventuário do que emana da tutela.” Defende, por isso, que ele “combata a perspectiva árida e tecnocrática do ensino e, simultaneamente, combata aquela superficialidade e o fascínio para com as modas tecnológicas que escondem (tais superficialidade e fascínio) a mais vil ignorância quanto ao que deve saber-se leccionar.” (Visão, 2026, p.8, nº1741) Para os pais, sobretudo dos mais pequeninos, é a manifestação da ansiedade e preocupação, quantas vezes injustificável, com uma nova fase.
Na designada “comunidade educativa”, em especial da parte de pais e encarregados de educação (EE), temos assistido ao foco em questões que não são as mais relevantes para a educação e formação das nossas crianças e jovens. Sobre governos/Ministério da Educação prefiro nem falar, dado o habitual e clamoroso desconhecimento da ecologia social escolar e da incapacidade de lerem os sinais do tempo.
Face ao mundo disfuncional a que assistimos e, pior ainda, àquele que se afigura, continua a surpreender-me como há pessoas preocupadas, em matéria educativa, com questões laterais, que nada definem ou determinam um rumo certo para a educação. Ao invés de pôr em causa a idoneidade do professor, a sua legítima autoridade, a escolha das metodologias e critérios de avaliação que considera os mais adequados; ao invés de nortear a educação dos seus educandos para os ilusórios quadros de mérito; ao invés de delegar todas, e mais as que se possam inventar, responsabilidades aos professores e às direcções de escola, salvo as reconhecidas excepções, os pais/EE deveriam, sim, olhar em seu redor e perceber que o mundo não se circunscreve a uma espécie de caixa de comentários, de uma qualquer rede social. Guerras, desinformação, proliferação do discurso do ódio, ascensão de populismos e da extrema-direita, atentados à democracia e a um conjunto de liberdades e direitos fundamentais, os reconhecidos perigos da Inteligência Artificial, as alterações climáticas e os seus impactos ambientais e sociais não podem ser tidos como meras parangonas. São alguns dos problemas que põem em causa a própria existência humana. Logo, parece-me avisado que o foco da educação deverá centrar-se nos valores do humanismo, na defesa dos Direitos Humanos, do meio ambiente e na formação ética e estética do aluno. A par da exigência e da dedicação ao estudo das diferentes matérias disciplinares, tal implica que se priorize, nos diferentes contextos educativos, o desenvolvimento do sentido crítico, da capacidade de análise, reflexão e intervenção na sociedade, fora da bolha virtual.
Dois acontecimentos recentes dão conta, uma vez mais, como os pilares do Estado democrático estão a ser minados, desde há muito. Um deles foi a vitória da extrema-direita alemã no Estado da Saxónia-Anhalt, que de pronto recebeu as congratulações de dois déspotas do outro lado do Atlântico (Trump e Musk). A desinformação e a incultura venceram. O outro tem a ver com os milhares de pessoas que se reuniram, em Belgrado, para assistir ao funeral e homenagear o antigo comandante militar sérvio-bósnio Ratko Mladic, criminoso de guerra condenado pelo Tribunal Penal Internacional, responsável pela morte de milhares de muçulmanos bósnios durante a guerra da Bósnia (1992-1995). Fiquei atónito.
Relativamente ao primeiro caso, tenho ouvido e lido amiúde que na origem do crescimento da extrema-direita está o descontentamento das pessoas com as condições de vida. A este respeito, a escritora luso albanesa Safaa Dib dizia, num recente artigo, o seguinte: “O fascismo alemão traz más memórias históricas, mas, não querendo simplificar demasiado este fenómeno, não podemos ignorar que este tipo de fascismo pode irromper de forma organizada e eficiente por falta de respostas sociais e económicas que permitam à população viver com dignidade numa democracia.” (Visão, 2026, p.81, nº1749) Certo, mas tal posição não indulta, por si só, o dito fenómeno. Sei de pessoas que não têm problemas económicos ou de outra ordem, muito pelo contrário, mas que sentem um fascínio e que votam nesse tipo de líderes vigorosos, histriónicos, com reposta fácil para o difícil ou impossível, enfim, charlatões. Cá pelo burgo, montado a cavalo branco, o nosso mediatizado jogral propõe “Salvar Portugal”!
Porque não o diria melhor, termino com a transcrição de um excerto de uma recente entrevista dada pelo músico e vocalista dos Moonspell, Fernando Ribeiro, à revista Visão. “Historicamente, a espécie humana prevaleceu por ser gregária. O que nos desenvolveu, até intelectualmente, foi a comunicação entre uns e outros. Somos uma espécie que depende do outro. Um homem não é uma ilha, OK, mas agora comportamo-nos um bocado como um arquipélago de ilhas isoladas. Por isso é que para mim não é nada surpreendente a ascensão da extrema-direita, porque são pessoas que não pensam no bem comum, mas antes no bem de uma elite, digamos assim, à qual querem pertencer. E para isso é necessário bloquear qualquer sentido comunitário, um conceito que hoje em dia está em risco devido à tal filosofia individual do eu primeiro, que até pode ter começado como uma boa intenção, mas acabou por envenenar por completo a Humanidade e a sociedade.”