Quem na sua plena lucidez olhar para o que ocorre dentro e fora de portas, em diferentes geografias, não poderá deixar de se inquietar, de se sentir aprisionado face a um conjunto de realidades perturbantes. Hoje, assistir a noticiários tornou-se um exercício penoso, dada a priorização das notícias que elevam os índices de audiência. Honra seja feita ao noticiário da noite da RTP2, uma excepção, que em meia hora diz o essencial, dedicando sempre o seu final a uma notícia ou acontecimento cultural. Os espaços destinados ao comentariado e ao debate político, cada vez mais polarizados, revelam-se, boa parte deles, confrangedores, tal é a inaptidão de alguns ditos “especialistas” sobre as matérias que discutem ou o facciosismo ideológico ou partidário despudorado.
No seu livro, “A new structural transformation of the public sphere and deliberative politics” (“Uma nova transformação estrutural da esfera pública e da política deliberativa”), Jürgen Habermas chamava a atenção para este fenómeno. O distinto filósofo e sociólogo alemão, recentemente falecido, alertava precisamente para aquilo que, simplificadamente, poderíamos chamar de ausência do debate sério, intelectualmente honesto e construtivo. Para Habermas, “A dinâmica de regressão política para a qual quase todas as democracias ocidentais foram traçadas desde a viragem do milénio pode ser medida pelo declínio, e em alguns países virtualmente pelo desaparecimento, do poder racionalizador e dos debates públicos.”[1] Lembra ainda o declínio drástico do consumo da imprensa diária, responsável pelo crescente desinteresse pelas notícias políticas e pela análise de questões politicamente relevantes, ao mesmo tempo que se assiste a uma “crescente infiltração de notícias falsas na esfera pública política e, em particular, o desenvolvimento espectacular em direcção a uma "democracia pós-verdade" (…).”[2]
Desde o início da humanidade assistiu-se, com relativa descontinuidade, a uma evolução da técnica, da ciência e da tecnologia, que conheceu uma intensificação e alargamento no século XIX, ao ponto de termos chegado, hoje, à inteligência artificial (IA). Infelizmente, nem sempre esse progresso material se traduziu ou traduz em progresso moral, revelando-se, inclusive, incapaz de enfrentar os problemas humanos fundamentais. É precisamente isso que nos dá conta Edgar Morin, outro vulto do pensamento sociológico e filosófico, que nos deixou este ano. Para o pensador francês vivemos uma nova era de desenvolvimento da sociedade de consumo e de bem-estar, contudo reservada a uma parte crescente, mas parcial, da população, resultando numa melhoria frágil. Alega que se operou “uma forma de industrialização da vida nos programas, na cronometragem, na redução de tudo o que é humano à economia, e esqueceram-se a afectividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja, as realidades humanas essenciais.”[3] Para Morin, os progressos técnicos, que considera inquestionáveis, têm sido, infelizmente, acompanhados por deficiências e carências morais, tendo conduzido a um esmorecimento na crença no progresso, na medida em que o progresso científico tem levado a uma degradação ecológica do planeta, assim como das sociedades e das civilizações.[4]
Aludindo a uma dissertação do Papa Francisco, intitulada “Discurso ao Conselho para um Capitalismo Inclusivo”, ocorrida em Novembro de 2019, o Papa Leão XIV, na sua Carta Encíclica “Magnifica Humanitas”, desenvolve uma longa reflexão sobre os perigos da IA e os equívocos de a quererem equiparar à “inteligência” humana, alertando para o facto do progresso técnico não estar a fazer-se acompanhar de um desenvolvimento ético e social. O Sumo Pontífice sublinha precisamente que “o progresso técnico, em si precioso, exige um discernimento sobre a visão antropológica que o orienta e sobre os fins que persegue. Se o desenvolvimento tecnológico avança sem uma maturação ética e social adequada, pode acontecer que os meios aumentem sem que a humanidade cresça na mesma medida: “tem-se mais”, mas não “se é mais” e a pessoa corre o risco de ser avaliada sobretudo com base no desempenho que garante.”[5]
Leão XIV considera a busca da verdade como elemento essencial para defender e consolidar a democracia, representando, ela própria, um instrumento de participação cívica no bem comum. Face às nebulosas que pairam nas redes sociais, à propaganda e à desinformação, agora ainda mais amplificadas pela IA, a educação assume, como é óbvio, um papel decisivo. Para o Papa, educar para o uso da IA passa, desde logo, por “educar para decidir quando e em que situações não a utilizar.”[6]
Combater esta anemia ética, moral e social, que coloca a democracia no cadafalso, é tarefa não só da escola, mas de toda a sociedade. A educação para a cidadania passa por aqui. Tudo o resto são flores.
[1] HABERMAS, Jürgen (2023). A new structural transformation of the public sphere and deliberative politics. Cambridge: Polity Press, p.19.
[2] Idem, p.43.
[3] MORIN, Edgar (2025). Lições da História. Lisboa: Planeta dos Livros, p. 98.
[4] Idem, p. 99.
[5] Papa Leão XIV, Carta Encíclica “Magnifica Humanitas” - Sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. 15 de Maio de 2026 [122].
[6] Idem, [140].
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